Paleta espacial

Paleta espacial

Saiba como são criadas as belas e coloridas imagens de planetas, nebulosas e galáxias.

Não se decepcione com esta notícia, mas a verdade é que as imagens de planetas, estrelas, nebulosas e galáxias captadas pelos mais potentes telescópios óticos do mundo são originalmente cinzentas.

As belas e psicodélicas cores que vemos em fotos estampadas em jornais, revistas, livros e sites são construídas e tratadas em programas de edição de imagem.

Calma, isso não significa que é tudo invenção. O processo de coloração não é aleatório. As imagens capturadas por telescópios óticos são mais complexas do que as que tiramos com nossas câmeras fotográficas. Os telescópios não têm filme colorido ou um sensor CCD que capte as cores básicas da luz de uma só vez.

Eles possuem detectores eletrônicos com filtros que captam apenas uma faixa de luz em cada detecção, geralmente em comprimentos de onda não visíveis a olho nu, como o infravermelho e o ultravioleta. O resultado são imagens em tons de cinza que representam a intensidade de cada comprimento de onda, muito diferentes das belas imagens que estamos acostumados a ver nas notícias sobre astronomia.

Para trazer ao público uma foto que seja parecida com o que veríamos se pudéssemos olhar para as mais distantes regiões do espaço, é necessário fazer a combinação de pelo menos três imagens, em tons de cinza, tiradas com diferentes filtros e em diferentes exposições.

O infográfico mostra como as imagens astronômicas são construídas. Nesse caso, as cores da foto final, da Nebulosa da Águia, são representativas. O azul indica a luz do hidrogênio; o preto, do oxigênio; e o vermelho, do enxofre. (infográfico: Sofia Moutinho|fotos: Hubble/Nasa)

Cada uma das três imagens deve ser obtida com uso de um filtro especial, que capta apenas a luminosidade nas cores visíveis por nós – por exemplo, o azul, o vermelho e o verde, que formam as imagens de computador no padrão conhecido como RGB.

Essas fotos são transformadas em jpg e, em seguida, coloridas de acordo com a cor em que foram captadas. Depois disso, elas são sobrepostas por meio de um programa de edição de imagem, dando origem a uma bela foto colorida.

“As imagens coloridas de divulgação são geradas de forma cega, mas são muito próximas da realidade, pois todo o processo é científico”, afirma o astrônomo Marcos Diaz, da Universidade de São Paulo (USP). “O pesquisador por trás disso calibra bem os coeficientes atribuídos a cada pixel para que a cor seja verossímil.”

Cores falsas

Mas a maioria das imagens astronômicas não tem como proposta a fidelidade de cores. Segundo Diaz, as fotos usadas em trabalhos científicos geralmente são usadas em tons de cinza mesmo.

“Para a ciência não interessa tanto a beleza da foto”, diz. “Precisamos olhar para uma imagem e ver os dados contidos no que está além do que o olho pode enxergar. ”

 

Ultravioleta e visível
Na imagem acima, é possível ver a diferença entre a foto da Nebulosa de Helix na luz visível (dir.) e a mesma formação em infravermelho (esq.). (fotos: J. Emerson/ Vista/ ESO)
Ainda assim, algumas imagens de pesquisas são coloridas. Nesses casos, as cores são usadas como ferramentas de estudo para visualizar detalhes e padrões que podem passar despercebidos no preto e branco. Uma determinada cor pode ser escolhida para representar algum elemento químico ou para identificar regiões que emitem mais intensamente um comprimento de onda, como o infravermelho e o ultravioleta.“Algumas imagens nos dão informações muito ricas, como a temperatura e a densidade de uma nuvem de gás próxima de uma estrela,” explica Diaz. “Além de muito bonitas, as fotos astronômicas são carregadas de informação.”

 Confira no vídeo abaixo a criação da imagem da galáxia NCG 3982

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Bode expiatório da floresta

Bode expiatório da floresta

Pesquisa sugere que o sagui, espécie invasora no Sudeste, pode ter importante papel ecológico na floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, ajudando na dispersão de sementes.

Espécies invasoras, que se instalam em um ambiente que não é seu, geralmente desequilibram o ecossistema local. O sagui, trazido para o Sudeste por imigrantes nordestinos há pelo menos um século, é um desses casos. Hoje, o pequeno primata vive pendurado em fios de luz e também nos fragmentos de mata nas cidades.

Se não bastassem os distúrbios que o pequeno primata causa no ambiente urbano, ambientalistas têm apontado – como a Ciência Hoje já mostrou – que a presença desse invasor pode ser negativa para espécies nativas, especialmente aves, pois ovos e pequenos pássaros fazem parte da dieta do sagui. Mas será que só malefícios podem ser colocados na conta do bichinho?

Um biólogo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro foi procurar resposta em um material inglório: as fezes dos saguis-de-tufo-branco (Callithrix jacchus) que se instalaram na floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Ele descobriu que o animal tem importante papel ecológico, ao ajudar na dispersão de sementes.

Saiba mais sobre as conclusões da pesquisa no vídeo abaixo

*Publicado originalmente na Ciência Hoje On-line em 14/01/2015

Proteção nas alturas

Proteção nas alturas

Desde que se popularizaram, os drones vêm sendo usados para as mais diversas finalidades, de armas de guerra a auxiliares na arqueologia, de protagonistas de espetáculos de circo a entregadores de pão. Agora, os veículos aéreos não tripulados chegaram aos confins das florestas da América do Sul e Ásia, mais precisamente às mãos de indígenas que os têm empregado como ferramenta de preservação ambiental e monitoramento de suas terras.

Na Indonésia, país que abriga a terceira maior floresta tropical no mundo, comunidades indígenas usam os drones para mapear de forma eficiente os seus territórios. Desde maio do ano passado, uma emenda ao código florestal do país retirou as florestas habitadas por grupos tradicionais da categoria de terras estatais. As terras indígenas, bem como os seus recursos naturais, passaram então a ser dos próprios povos que nelas vivem. Assim, o estado deixou de ter o poder de vender as florestas para empresas privadas, como vinha sendo feito com frequência no país.

Da mudança na lei, surgiu a necessidade de ter conhecimento sobre os limites das terras indígenas e das condições da mata no entorno de empresas que já tinham recebido do governo o direito de explorar esse território. Os drones foram a solução adotada por muitas comunidades, entre elas, a Setulang, na província de Malinau. Com a junção das fotos aéreas tiradas pelo equipamento, é possível obter um mapa detalhado do local.

O mapeamento com drones é importante para nós porque, quando falamos com as companhias que a terra é nossa, elas sempre colocam em dúvida a nossa existência e o nosso território, questionam onde estamos localizados, mas o mapa é a prova de nossa existência”, conta a líder indígena Mina Estra, da Aliança dos Povos Indígenas da Indonésia (Amam).

Os atuais mapas do Ministério das Florestas da Indonésia possuem escala de 1:250.000 e não exibem as aldeias indígenas. Os mapas obtidos com os drones têm um nível bem maior de detalhamento e já estão sendo enviados ao governo pelos índios.

Atualmente há cerca de 70 milhões de índios vivendo nas florestas da Indonésia e a expectativa do grupo é mapear com os drones 40 milhões de hectares até 2022. “É muito importante prover essas informações para o governo e para quem quiser saber de nossos territórios”, diz Estra. “Agora temos provas para dizer que o território é nosso e tomar as devidas ações caso ele esteja sendo destruído por alguém de fora.”

Vazamentos no Peru

Na Amazônia peruana, comunidades indígenas seguem o mesmo exemplo e, desde o início deste ano, vêm recebendo treinamento para usar os drones. A iniciativa foi de um casal de artistas búlgaros, Nina e Georgi Tushev, donos da Tushev Aerials. Os dois constroem drones para fazer fotos aéreas, exibidas em galerias e museus, e tiveram a ideia de oferecer a ferramenta para que os povos indígenas monitorassem suas terras. Viajaram ao Peru e lá promoveram, com o apoio da Fundação Ford, oficinas de uso do equipamento para quatro comunidades em Saramuro, na província de Loreto, às margens do rio Maranon.

Assista a um vídeo que mostra o treinamento dos índios para usar drones

“Estar no Peru me mostrou o quão revolucionária é essa ferramenta para esse grupo marginalizado durante tanto tempo”, conta Nina Tushev. “Nossa esperança é que essa ferramenta dê mais informações e evidências que ajudem os indígenas a proteger melhor seus territórios das pressões que eles sofrem, muitas vezes sozinhos. É um meio seguro e barato.”

Um drone e um laptop necessário para sua operação, orçados em 5 mil dólares, foram doados para os indígenas. O drone consegue voar por até uma hora e cobrir cerca de 20 km2 nesse intervalo.

Desde que começaram a usar a tecnologia, os índios peruanos já puderam detectar três vazamentos de petróleo em dutos de empresas que têm a concessão governamental para explorar o recurso em suas terras.

“No Peru, o governo não tem controle suficiente para impedir o impacto ambiental de petroleiras e madeireiras que atuam dentro dos territórios indígenas”, afirma Henderson Rengifo, da Associação Interétnica de Desenvolvimento da Selva Peruana (Aidesep). “As empresas têm contaminado nossos rios e a ação do governo tem sido quase nula. Com os drones, rapidamente podemos detectar e denunciar as más ações. Agora, somos parte da solução.”

Depois de recentes reclamações dos indígenas à companhia de petróleo e gás natural que atua em suas terras, a argentina Pluspetrol, as medidas cabíveis foram tomadas para resolver o problema. A empresa assumiu o impacto ambiental dos vazamentos e tem realizado ações de mitigação e reflorestamento.

Vazamentos de óleo na região não são raros. No ano passado, o governo peruano decretou três emergências ambientais por esse motivo em zonas de floresta. No Brasil, embora a exploração de recursos naturais em terras indígenas só possa ocorrer com o consentimento dos seus habitantes, de acordo com a Constituição Federal, casos semelhantes têm sido divulgados. Recentemente, povos indígenas Suruwaha, Banawa, Deni e Paumari, da Amazônia, denunciaram por meio da ONG Survival International que a Petrobras se preparava para extrair petróleo e gás em suas terras sem autorização.

*Texto originalmente publicado na Ciência Hoje On-line em 20/10/2014

Pensando fora da célula

Pensando fora da célula

Sem se prender a dogmas, pesquisadora mostra como revolucionou a forma pela qual a comunidade científica entende o câncer hoje. Seus estudos abriram caminho para uma nova abordagem de tratamento dessa doença.

“Os seus professores não sabem de tudo, não acreditem nos livros didáticos, questionem as autoridades, olhem para seus próprios dados – pensem fora da caixa.” Foi com esse conselho que a bioquímica iraniano-americana Mina Bissell, renomada pesquisadora do câncer de mama do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, nos Estados Unidos, e cotada ao prêmio Nobel, terminou uma palestra para jovens pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) na semana passada. Não sem acrescentar que ela mesma já tinha se tornado uma autoridade e, portanto, também merecia ser desafiada.

Mina Bissell levou a filosofia de ‘pensar fora da caixa’ a sério e desafiou conceitos já estabelecidos. Por anos, a ideia corrente no meio científico era de que mutações genéticas nas células eram a causa do câncer. Mas Bissell olhou para fora da célula em busca de respostas e observou que o seu entorno, a chamada matriz extracelular, tem papel igualmente importante em determinar se uma célula é normal ou maligna.

O novo ponto de vista surgiu de um questionamento simples, quase evidente: como poderiam as células de nosso corpo ser tão diferentes se todas carregam o mesmo genoma?

“Aqui temos o mesmo DNA que aqui”, diz a cientista apontando para o nariz e para os seios. “Se herdar uma mutação genética é suficiente para causar o câncer, todo o corpo de uma mulher que tenha os genes BRCA1 e BRCA2 [ligados ao câncer de mama], por exemplo, deveria ser canceroso. Elas deveriam ser um tumor gigante!”

Se esse não é o caso, pensou Bissell, provavelmente um fator importante do câncer não seria somente o que ocorre dentro do núcleo das células, mas fora dele. A partir daí, há mais de 30 anos, a cientista iniciou testes em laboratório com células saudáveis da glândula mamária humana, um tecido que muda bastante de estrutura durante a lactação e depois volta ao normal.

Primeiro, ela tentou cultivar as células em um disco de Petri, mas estas não sobreviviam. Somente quando a cientista recriou um ambiente externo mais semelhante ao do corpo humano, um ambiente em gel tridimensional e não achatado, as células responderam bem e, estimuladas, até produziram leite. “Descobrimos que a arquitetura importava, desenvolvemos esse maravilhoso gel e, não sei por que, na época, não pensei em patentear”, comenta a cientista. “Hoje alguém patenteou e ganha muito dinheiro com ele.”

Contexto revertido

Antes de tentar entender o que gera o tumor, Bissell começou a estudar o que faz uma célula normal manter sua estrutura. “A questão da especificidade do tecido é algo que não entendemos bem até hoje; e se não compreendemos o normal, como podemos entender o maligno?”, questiona.

A resposta, ela acreditava, estaria na matriz extracelular. Dependendo dos componentes do entorno e da comunicação desse meio com o núcleo celular, a célula se tornaria maligna ou não. A ideia ganhou ainda mais força depois que Bissell injetou, em embriões de galinhas, células de um oncogene que tinha mostrado em pesquisas anteriores ter a capacidade de provocar câncer nessas aves. Enquanto nas galinhas adultas o oncogene provocava tumores, nos embriões nada fez.

“Isso significa que o contexto é que determina quando um oncogene causa câncer”, afirma a cientista. Se o contexto tem tanta importância, alterando-o seria possível mudar a forma maligna dos tumores. E foi isso mesmo que Bissell provou mais tarde, em 1997. A cientista conseguiu que células de tumor de mama voltassem a sua forma normal depois de inseridas em um ambiente quimicamente equilibrado. Mesmo com a mutação genética, as células preservaram suas funções.

Mudando apenas as condições do entorno celular, a cientista conseguiu transformar células normais da glândula mamária (esq.) em células malignas (centro). Ela também fez o caminho inverso, devolvendo uma estrutura normal a células malignas (dir.). (foto: Carolyn Larabell/ Lawrence Berkeley National Laboratory)

Depois, a cientista fez o caminho contrário: transformou células saudáveis em cancerosas ao comprometer a interação entre a matriz extracelular e os núcleos celulares. As experiências abriram caminho para uma nova abordagem de tratamento do câncer, já em testes avançados atualmente.

Especificidades

Bissell insiste: as células com mutações não estão condenadas a virar tumores. Elas só se tornam cancerosas quando perdem a sua forma devido a alguma interação anormal com o meio em que estão inseridas. Ou seja, forma e função estão intimamente ligadas. Por isso, um câncer de mama, que acomete um tipo específico de células e um meio específico, não pode ser tratado da mesma maneira que um câncer de pulmão, que acomete células completamente diferentes.

“Temos que entender a especificidade dos tecidos para entender o câncer”, reforça a pesquisadora, que critica a visão de que a resposta para tudo está no DNA. “Não entendo como as pessoas podem achar que o genótipo é o preponderante quando nos olhamos no espelho e é óbvio que o que prepondera é o fenótipo, essa incrível variedade de formas com um mesmo material genético. De que adianta sequenciar o genoma e continuar sem saber por que um nariz é um nariz?”

Ao estudar a matriz extracelular dos seios, Bissell e seus orientandos identificaram algumas substâncias envolvidas no câncer de mama. Uma delas é a glicose, uma das moléculas do popular açúcar. Em testes de laboratório, eles mostraram que o excesso de glicose no meio celular provoca o surgimento de tumores. “Da próxima vez que forem comer o terceiro prato desses maravilhosos doces brasileiros, pensem duas vezes”, brinca.

Se a simples glicose pode causar câncer, por que não temos todos a doença? Esse foi outro questionamento que incentivou a pesquisadora a fazer mais estudos. Para entender o que está por trás do crescimento anormal dos tumores, ela começou a pesquisar o que leva as células normais a saber quando parar de se multiplicar. Foi assim que Bissell se deparou com a laminina, uma proteína que faz com que as células fiquem ‘grudadas’ na matriz extracelular.

A cientista e colegas, inclusive do Brasil, descobriram que a laminina faz muito mais e está diretamente ligada a essa capacidade da célula de parar de se dividir. A falta da substância pode ser um dos fatores que desencadeiam o câncer. “A laminina não está presente na matriz extracelular de 97% dos cânceres de mama”, pontua Bissell.

Os estudos com a proteína continuam e a cientista acredita que, conhecendo melhor a sua interação com outras substâncias e as células, é possível usá-la no tratamento do câncer de mama e da leucemia. “Estamos muito perto disso”, diz. “Muitas terapias já focam no microambiente hoje, tratando, por exemplo, a inflamação, que, quando resolvida, já leva muito do câncer embora.”

Apesar dos avanços, Bissell não acredita em uma cura do câncer. “Não vamos erradicar o câncer, pois ele está ligado ao envelhecimento”, afirma. “Ao envelhecermos, todos os tecidos perdem sua arquitetura e ficamos expostos ao câncer. Não faz sentido falar em fim do envelhecimento, logo, não faz sentido falar em cura do câncer. Mas podemos sim atrasar o seu aparecimento, torná-lo uma doença crônica.”

Para que esse dia chegue, a cientista pede mais estudos que levem em consideração a forma e a estrutura das células e seu entorno. “Sabemos tudo sobre o genoma, seu alfabeto e suas letras, mas não sabemos nada sobre a linguagem e o alfabeto da forma”, conclama.

*Texto originalmente publicado em 08/09/2018 na Ciência Hoje On-Line

 

Cinema no DNA

Cinema no DNA
Pesquisadores usam CRISPR para codificar um filme no DNA de bactérias. O feito abre caminho para a criação de células-computadores capazes de capturar, estocar e propagar informação por conta própria

Tem gente que pensa que carrega a arte no DNA. Mas certa colônia de bactérias E. coli poderia se vangloriar realmente desse feito. As microscópicas causadoras de infecções intestinais foram as escolhidas para se tornarem o primeiro ser vivo a carregar literalmente um filme no material genético.

Usando o sistema CRISPR de edição genética, pesquisadores da Harvard Medical School e do Wyss Institute for Biologically Inspired Engineering incorporaram no DNA das bactérias o curta “Sallie Gardner at a Gallop,” de Eadweard Muybridge, um dos precursores do cinema. O vídeo simples e icônico mostra um cavalo em movimento.

A técnica de edição genética com CRISPR (lê-se crísper, sigla para Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats) tem dado o que falar recentemente. Trata-se de um mecanismo capaz de editar com precisão o material genético usando o “sistema imune” das bactérias, que evoluiu para protegê-las do ataque de vírus.

O CRISPR é uma molécula presente nesses microrganismos que juntamente com a proteína Cas9 funciona como uma tesoura inteligente que performa microcirurgias no DNA em locais específicos. No caso de um ataque de vírus à bactéria, esse sistema detecta uma determinada sequência de DNA do invasor e usa a Cas9 para cortar com precisão o material genético. Essa sequência é incorporada ao plasmídeo (DNA microbiano) e funciona como uma memória, servindo para ativar a defesa em um próximo ataque. Já para a ciência, o mecanismo tem sido usado para localizar e editar rápida e facilmente qualquer gene de qualquer célula desejada.

Foi esse recorta e cola que do CRISPR que permitiu aos pesquisadores editar o DNA da E.coli de modo a codificar os pixels que formam cada imagem (frame) que compõe o vídeo de Muybridge. Eles usaram sequências de bases de DNA específicas para representar cada cor que compunha as imagens. Para o filme todo forma usadas 520 sequências de DNA com 17.000 bases. Esses trechos foram introduzidos no plasmídeo das bactérias e depois “lidos” por um programa de computador para recompor as imagens originais pixel a pixel.

A partir do código de bases de DNA inscrito nas bactérias, foi possível “recriar” as imagens do filme com 96% de precisão.

Seres vivos ou máquinas?

Para além da curiosidade e do lado artístico, o feito pode abrir caminho para aplicações mais utilitárias envolvendo o uso de DNA para armazenar informações. Segundo os pesquisadores, O DNA tem a vantagem de ser um meio muito estável ao longo do tempo e capaz de guardar grande volume de informações. Alguns experimentos já haviam sido conduzidos usando bases de DNA para armazenar imagens, mas é a primeira vez que isso é feito com tal complexidade e em genomas de seres vivos.

“Com esse experimento empurramos os limites técnicos do ‘bio-armazenamento’ de informações e otimizamos estratégias nesse sentido”, me respondeu por e-mail um dos líderes da pesquisa, Seth Shipman, de Harvard. “Por ser estável, o DNA é ótimo para guardar informações que você não planeje acessar com frequência e o que fizemos foi um passo além, pois guardamos informação em uma célula viva. Não só tivemos que sintetizar os códigos de DNA, mas também entrega-lo às células e fazê-las incorporá-los ao seu genoma.”

Shipman conta que no futuro o experimento pode ser aperfeiçoado para que a própria célula passe a gravar em seu DNA informação. Uma célula poderia, por exemplo, gravar em tempo real em seu genoma informação sobre sua própria atividade. “Estamos usando as imagens e filmes como um piloto para um sistema piloto de ‘gravador molecular’. Esperamos conseguir usar esse mecanismo para saber coisas que hoje não sabemos, como o que se passa dentro das células. Essa informação seria gravada no genoma celular e nós poderíamos recuperá-la depois.”

É o limite entre seres vivos e máquinas ficando cada vez mais permeável.

Não largue sua paçoca!

Não largue sua paçoca!

Primeiro foi o escândalo da carne adulterada evidenciado pela maior operação da história conduzida pela Polícia Federal. Brasileiros carnívoros invictos foram à loucura com a possibilidade de encontrar papelão, vitamina C e salmonela no seu bifinho. Mas o que deixou as pessoas realmente revoltadas, atingindo carnívoros e vegetarianos, foi a notícia de hoje sobre a “paçoca proibida pela Anvisa por conter substâncias cancerígenas”.

As manchetes, extremamente sensacionalistas, não dizem que o caso se trata de uma contaminação comum ao amendoim e que apenas uma marca de paçocas com um lote específico foi atingido: o lote 0027 do Doce de Amendoim Paçoca Rolha, marca Dicel.

Como são raros os espécimes humanos habitantes de redes sociais que leem mais do que o título das reportagens, a notícia vem sendo compartilhada como se todas as paçocas do Brasil estivem com venda vetada!

O que as reportagens também não dizem é que a contaminação por  aflatoxinas é tão comum no amendoim quanto o caruncho no feijão. Tanto que a Anvisa estabelece um limite aceitável (20 μg/kg)para a presença da substância, que é produzida naturalmente por fungos (Aspergillus flavus e A. parasiticus) comuns em lavouras de grãos.

Uma pesquisa realizada pela toxicologista Eloisa Caudas, da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília, em 2002, analisou cerca de 60 quilos de amendoins e derivados no Distrito Federal e revelou que 34,7% desses alimentos continham níveis de aflatoxinas acima dos permitidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Não coincidentemente a marca agora condenada é também do DF.

“A exposição humana a micotoxinas através do consumo de alimento contaminado é uma questão de saúde pública no mundo todo”, diz Caudas. “A contaminação dos alimentos pode ocorrer no campo, antes e após a colheita, e durante o transporte e armazenamento do produto.”

E o câncer? Sim, é verdade e não é só isso. A exposição a aflatoxinas durante muito tempo em altas concentrações pode provocar câncer de fígado. Doses altas consumidas de uma única vez pode causar aflatoxicose, caracterizada pelo dano agudo ao fígado que pode culminar em morte.

Até hoje, os únicos surtos da doença registrados no Brasil foram em suínos e bezerros, devido a  dieta de ração contaminada.

“Não é incomum os níveis estarem acima daqueles estabelecidos pela legislação”, diz a pesquisadora. “Há algumas substâncias nocivas às quais o homem está exposto desde que se entende por homem, dentre elas, as aflatoxinas, que são consideradas as micotoxinas (produzidas por fungos) mais tóxicas ao homem”, comenta a pesquisadora.

As aflatoxinas não são destruídas pelo calor e produtos de amendoim feitos com matéria prima contaminada também podem estar contaminados.

Para minimizar os riscos à saúde associados ao consumo de substâncias tóxicas presentes em alimentos, a toxicologista aconselha que as pessoas fiquem atentas à procedência de frutas, legumes e vegetais antes de comprá-los. Mas ela afirma que, apesar de tudo, é melhor comer esses alimentos do que evitá-los. “O risco à saúde sempre depende da dose a que a pessoa é exposta”, explica.  “Pelo histórico de contaminação destes produtos no Brasil, é improvável que o consumo de uma quantidade razoável de paçocas, com 5 unidades, por exemplo, leve a uma aflatoxicose.”

A exceção são as pessoas com hepatite, para as quais atenção deve ser redobrada, pois o fígado já comprometido pode não aguentar o baque da contaminação.

Então, se você não tem hepatite, não comeu paçoca Dicel nos últimos tempos, nem é daqueles que come quilos de amendoim por dia, fique tranquilo e não abandone sua paçoquita!

 

Brinquedo de papel se mostra boa ferramenta de diagnóstico

Um pedaço de papel e um barbante. Essa é a base de uma centrífuga de baixo custo inventada para separar o sangue em plasma e células vermelhas. A gambiarra parece coisa de brasileiro, mas foi obra de cientistas indianos, chineses e gregos radicados na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Uma ideia tão simples que a gente se pergunta como ninguém havia pensado nisso antes.

Por apenas 20 centavos de dólar, pesando 2g, a centrífuga de papel dispensa baterias ou eletricidade. É movida apenas à força do braço humano, que ao puxar o barbante gira o papel a uma velocidade de 125,000 rotações por minuto.  Em comparação, uma centrífuga portátil usada para a mesma finalidade não sai por menos de US$2.700 fora do Brasil.

Segundo os criadores, o dispositivo é o mais rápido já criado movido à força humana, o que lhes incentivou a entrar com um pedido no Guinness World Records.

“Nossso brinquedo é uma oscilador não linear e não conservativo: em cada ciclo a entrada de energia é introduzida pela mão humana e dissipada pelo sistema pela resistência do ar e pelo barbante”, explica o artigo, publicado nessa semana na Nature Biomedical Engeneering.

A centrífuga consegue separar mecanicamente o plasma das células sanguíneas em cerca de 15 minutos. Os criadores se gabam do feito contando que antes da invenção, outras gabiarras comumente usadas, como centrífugas de salada e batedores de ovos, pesavam mais, não ultrapassavam  1.200 rpm e levam mais tempo para fazer o trabalho.

A ideia por trás do dispositivo é poder ter fácil acesso à centrifugação em trabalhos de campo e ambientes sem recursos. “Todo laboratório de diagnóstico usa centrífugas e nós queríamos fazer uma extremamente acessível e barata para uso em países em desenvolvimento e regiões sem eletricidade”, conta Manu Prakash, um dos inventores.

A inspiração para a traquitana veio de brinquedos tradicionais. “Começamos observando brinquedos como o iô-iô e acabamos nos deparando com um chamado carrosel (whirligig). Vimos que ninguém entendia a física e a matemática por trás desse brinquedo, que não se move tão rápido assim. Mas quando entendemos esses parâmetros, conseguimos ajustar o dispositivo para torná-lo rápido o suficiente para separar do plasma células sanguíneas, parasitas da malária e todo tipo de parasitas.”

Os cientistas agora planejam disponibilizar o projeto da centrífuga para produção em quantidade ma material plástico em impressoras 3D.