Cientistas alertam para agravamento da crise hídrica

Reunidos na Academia Brasileira de Ciências, pesquisadores dizem que situação poderia ter sido contornada e pedem mais ação do governo

Do lado de fora um calor de quase 40ºC. Nas casas falta luz e a água é escassa. O cenário era previsível e evitável desde 2013 segundo cientistas brasileiros. Em reunião na Acadêmica Brasileira de Ciências, eles alegaram que a situação, que poderia ter sido administrável com as medidas corretas, chegou a um ponto irreversível e tende a piorar.

De acordo com os cientistas, mesmo que chovesse acima da média histórica nos reservatórios do Sudeste hoje em baixa, eles não atingiriam um nível confortável — o que faz de 2015 um ano difícil para o abastecimento de água e, por consequência, de energia elétrica.

“Nossa situação é extremamente grave, os maiores reservatórios do Sudeste e Centro-oeste estão com nível médio de água de 17% e já não há como se reverter e voltar ao nível normal até o fim do período úmido, em abril”, disse o físico Luis Pinguelli Rosa, coordenador do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Isso significa que são altas as chances de que a região Sudeste sai do período de chuvas e entre no período de seca com os reservatórios em situação calamitosa.

Os pesquisadores ressaltaram que a situação não começou agora. “Há muito tempo que há uma tendência de esvaziamento progressivo desses reservatórios de modo a não atingir um nível confortável de geração elétrica”, comentou Pinguelli. “Se olharmos as curvas dos últimos três anos elas têm sido decrescentes.”

O climatologista José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) explicou que a falta de água nos reservatórios se deve à ausência de um fenômeno meteorológico típico: a zona de convergência do Atlântico Sul, caracterizada pela chegada de nuvens e massas de ar frio no Sudeste vindas da Amazônia.

O cientista afirmou que, apesar de previsível, a intensidade do fenômeno não podia ser antecipada. Ainda assim, ele clama que alterações como estas deveriam estar incluídas no planejamento hídrico do governo. “Crises piores que estas já ocorreram na década de 1950, tivemos uma crise semelhante em 2001, mas não aprendemos nada com elas”, pontuou. “Situações com esta podem se repetir no futuro e poderiam ser resolvidas com um bom gerenciamento hídrico.”

Marengo avisa que será necessário chover pelo menos 50% acima do nível normal para essa época do ano para que os reservatórios do Sudeste saiam do nível de risco em que se encontram; situação altamente improvável. O climatologista ressaltou que não é possível culpar as mudanças climáticas pela crise atual, mas que o aquecimento do planeta também deve ser levado em consideração nos planejamentos futuros.

Os alertas dos cientistas já haviam sido reunidos em um documento entregue ao governo federal em novembro do ano passado. “Naquela época já era possível antever a crise sem nenhuma bola de cristal”, disse engenheiro Paulo Canedo, coordenador de hidrologia da Coppe-UFRJ. “Nós previmos o problema e sugerimos racionalização do uso e aumento tarifário, mas nada foi feito.”

Medidas baseadas em evidências
Os pesquisadores pedem por uma mais ação concreta e direcionada do governo. Na carta entregue aos governantes, pedem  aumento tarifário e campanhas de conscientização popular. “Até agora não há política oficial estabelecida de redução de consumo de água e as medidas já tomadas pelas prefeituras são muito boas, disse Pinguelli. “Não há alerta na população e se o consumo continuar como se nada estivesse acontecendo, teremos sérios problemas.”

Apesar de todo o alarde que vem sendo feito em relação a São Paulo, já sob medidas de racionamento, o Rio de Janeiro também está sob perigo. Nesta semana, o nível da bacia do Rio Paraíba do Sul, que é a média do volume dos quatro reservatórios do estado, chegou a 3,14% de sua capacidade. Ainda assim, até o momento, não há política direcionada para questão.

Os especialistas também criticam algumas medidas paliativas já tomadas em São Paulo, como a redução da pressão da água e o rodízio. De acordo com a bióloga Sandra Azevedo, diretora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ, a redução da água contamina o sistema e acarreta em doenças como a diarreia, que afeta principalmente a população mais pobre sem acesso a tratamento de água mais rebuscado.

“O regime de intermitência gera contaminação nos canos por causa da diferença de pressão dentro da tubulação e fora, onde existe água contaminada”, explicou. “Quando a água volta em sua pressão normal, essa água imprópria já se infiltrou e o produto final que chega ao consumidor já não é mais potável. Precisamos de soluções menos imediatistas e mais baseadas em evidências científicas.”

 

 

 

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