Cara a cara com os antepassados

Designer brasileiro reconstrói rostos de mais de 20 hominídeos de espécies extintas

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O “Homo heidelbergensis” surgiu há mais de 500 mil anos e perdurou até cerca de 250 mil anos atrás.

A aparência dos nossos antepassados, mais do que tema da antropologia física, é uma curiosidade de muita gente. O designer brasileiro Cícero Moraes tem ajudado a preencher essa lacuna com trabalhos de reconstrução facial em 3D de personalidades e ícones históricos falecidos.

Foi ele quem reconstruiu o rosto da múmia egípcia Tothmea, do Museu Egípcio da Ordem Rosacruz, e também as feições do padre e santo católico Antônio de Pádua. Agora, em parceira com antropólogos e arqueólogos da Universidade de Pádua e da empresa Arc-Team, ele traz a público a cara de nossos mais antigos antepassados, hominídeos que viveram há milhões de anos.

Dentre os antepassados que ganharam um rosto estão o Australopithecus afarensis, espécie da famosa Lucy que habitou o sul da África entre 3,9 e 2,9 milhões de anos atrás; o polêmico Neandertal, que andou pulando a cerca com humanos; e o homem de Cro-Magnon, considerado o ancestral direto do Homo sapiens.

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As reconstruções digitais foram feitas com base em fotos, tomografias computadorizadas e réplicas dos crânios. O material serviu de referência para o designer construir um modelo tridimensional dos ossos, a partir do qual ele pôde fazer uma aproximação da musculatura facial dos hominídeos com apoio em tomografias de primatas atuais, como chimpanzés.

Em cima da musculatura, o designer foi inserindo camadas de gordura e pele até obter um rosto. Segundo Moraes, as reconstruções são altamente precisas. “Os resultados foram excelentes, o que nos leva a crer que os hominídeos que reconstruímos podem ser compatíveis com os indivíduos em vida”, afirma Moraes. “Pelos testes que fizemos em humanos, a precisão volumétrica e de superfície de nossa técnica gira em torno de 80 a 92%.”

Depois dessa etapa, o designer adicionou os toques finais, como pelos e cor da pele. Para esses detalhes, Moraes se baseou em dados disponíveis de estudos anteriores sobre a aparência dos hominídeos. Mas aí também entra um pouco de liberdade artística, pois a ciência ainda não consegue prover essas informações com segurança.

Recentemente, foi publicado na revista Science um estudo que analisou a evolução de alguns traços europeus, como a pele branca. O trabalho foi contra o que se imaginava até hoje sobre o assunto e, usando análises de DNA de populações antigas, concluiu que a pele clara só apareceu na Europa muito recentemente, nos últimos 8 mil anos.

Se a pesquisa estiver correta, o Cro-magnon das reconstruções de Moraes está precisando tomar um sol. Até hoje a espécie vem sendo representada com a pele clara, mas seus esqueletos, encontrados na Europa, datam de mais de 40 mil anos, bem antes da data indicada pelo novo estudo.

Detalhes a parte, Moraes defende o potencial lúdico e inspirador de seu trabalho. “Imagino que as grandes questões científicas relacionadas a evolução das espécies sejam respondidas em momentos menos ‘visuais’ dos estudos e mais estatísticos e laboratoriais”, comenta. “No entanto, o trabalho de reconstrução, ao dar um rosto aos fósseis, acaba levando todo esse trabalho ao grande público e fazendo com que muitos curiosos acabem se tornando parte da equipe de estudos a médio e longo prazo. Muitos cientistas já foram um dia crianças deslumbradas!”

As reconstruções estão em exposição no Museu da Universidade de Pádua, Itália, com nome “FACCE. I molti volti della storia umana” (Rostos, as muitas faces da história humana) até 14 junho.

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