Cientistas brasileiros chegam mais perto de tratamento com células-tronco para o Mal de Parkinson

Células-tronco embrionárias tratadas com medicamento contra câncer se mostraram uma estratégia segura e eficaz para tratar o Parkinson em camundongos, reduzindo sintomas sem gerar efeitos colaterais.

Neurônios-dopaminérgicos-copy

No mês de atenção ao Parkinson, cientistas brasileiros anunciam um importante passo em direção à terapia celular contra o Mal de Parkinson. Usando uma substância já aprovada para combate ao câncer, os pesquisadores conseguiram realizar em animais implantes de células-tronco embrionárias bem sucedidos, reduzindo os sintomas da doença sem gerar efeitos colaterais, como a formação de tumores — que até hoje tem sido um grande obstáculo em uma possível terapia celular.

O Mal de Parkinson afeta hoje mais de 10 milhões de pessoas pelo mundo e é causado pela degeneração dos neurônios dopaminérgicos, que contém dopamina (um neurotransmissor, entre outras coisas, envolvido no controle de movimentos corporais). O tratamento corrente para a doença inclui medicamentos que geram diversos efeitos adversos e não conseguem deter o seu avanço.

Estudos recentes com animais têm indicado que o transplante de células-tronco embrionárias pode reverter a degeneração dos neurônios dopaminérgicos e restaurar a função motora. As células-tronco têm a capacidade de se transformarem em qualquer tecido do corpo e uma vez implantadas no cérebro do animal doente se diferenciam em neurônios dopaminérgicos.  No entanto, o procedimento tinha se mostrado pouco seguro, por envolver o alto risco de formação de tumores depois do transplante.

“As células-tronco pluripotentes podem virar qualquer tecido e por isso a chance de se transformarem em tumor é grande”, explica o neurocientista do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Stevens Rehen, orientador da pesquisa, que é fruto do trabalho de doutorado da aluna da UFRJ Mariana Acquarone.

Para resolver esse problema, os pesquisadores testaram pela primeira vez o uso de uma substância que fez toda a diferença. Antes do transplante, eles trataram as células-tronco de camundongos com mitomicina C — um medicamento já prescrito no tratamento de câncer de estômago. A droga atua na replicação do DNA das células e previne o seu crescimento descontrolado, que é a causa dos tumores.

No experimento, foram usados camundongos com os mesmos sintomas de um paciente de Parkinson, como falta de coordenação motora. Os animais foram divididos em três grupos. O primeiro, o grupo controle, não recebeu o implante das células-tronco. O segundo recebeu as células-tronco comuns, não tratadas com mitomicina C. E o terceiro recebeu as células tratadas com a substância.

Depois de injetadas cerca de 500 mil células-tronco, os animais do segundo grupo, do implante tradicional, mostraram melhoria nas funções motoras, mas morreram entre 3 e 7 semanas depois em decorrência de tumores. Por outro lado, os animais que receberam as células-tronco tratadas exibiram melhoria nos sintomas do Parkinson e sobreviveram por 12 semanas sem a formação de tumores. Quatro desses animais forma monitorados por 15 meses e ficaram saudáveis durante todo este período.

Além disso, os cientistas mostraram em testes in vitro que tratar as células-tronco com a mitomicina aumentou a liberação de dopamina em quatro vezes nos neurônios diferenciados. “A simples estratégia de expor as células-tronco a um medicamento contra o câncer tornou o transplante de células-tronco uma opção mais segura, eliminando o risco de formação de tumores”, diz Rehen.

A descoberta, publicada no periódico Frontiers in Cellular Neuroscience, abre caminho para que os pesquisadores iniciem testes clínicos usando células-tronco para tratar Parkinson e outras doenças neurodegenerativas.

“Nossa técnica usando a mitomicina C pode apressar os ensaios clínicos com células-tronco para tratar várias doenças em humanos”, diz Rehen. “É o primeiro passo para tornar esse tipo de tratamento possível.”

Atualmente, não existe no Brasil tratamento aprovado com células-tronco para doenças neurodegenerativas. Mas a pesquisa  pode demorar até chegar à clínica. Ainda é necessário realizar testes de segurança em humanos para garantir que o feito será o mesmo observado em camundongos.

Rehen avisa que essa etapa de pesquisa já está prevista, bem como o teste do novo protocolo em células-tronco de pluripotência induzida (iPS), que podem ser obtidas de qualquer tecido de um adulto e dispensam o polêmico uso de células de embriões.

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