Olhos nos olhos

Contato visual entre cães e humanos garantiu 10 mil anos de convivência pacífica entre espécies e continua amolecendo corações até hoje

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Todos os dias, assim que chego em casa, me deparo com eles: dois brilhantes e pedintes olhos cor de caramelo implorando por atenção e carinho. A reação é imediata. De uma zona desconhecida do meu ser, surge uma estranhamente melosa personalidade e junto com ela uma voz fina que diz coisas como “meu filho!”, “que bebezão bonito!”. Aviso ao leitor que não tenho filhos. Estou falando do Enzo, cão que adotei e mora comigo há seis meses. A similaridade com a relação entre uma mãe e um bebê não é à toa. Pode parecer estranho para quem nunca conviveu com um animal, mas a ciência explica a situação. Um estudo de pesquisadores japoneses sugere que existe entre os cães e os humanos uma ligação biológica análoga a dos pais com os filhos e mais, que este laço é reforçado pelo contato olho no olho entre as duas espécies.

Nas últimas décadas cientistas comportamentais, biólogos e neurocientistas vêm tentando explicar a curiosa ligação que existe entre humanos e cães. Estudos recentes mostraram que uma substância, a oxitocina, pode ter um papel importante nisso. Conhecida como o “hormônio do amor”, ela é liberada em nossos cérebros em diversas situações como, por exemplo, quando estamos apaixonados, quando atingimos o orgasmo e durante o parto e a amamentação nas mulheres. Como se vê, a oxitocina está ligada a circunstâncias de proximidade social e filiação.

Os cientistas têm observado que tanto os cães quanto os seus donos liberam grandes quantidades de oxitocina quando estão interagindo. O que faz sentido. No entanto, apesar de a substância ser liberada também por outros animais em contato com seus semelhantes, essa troca nunca foi observada entre membros de espécies diferentes –fora o caso especial dos humanos e “seus melhores amigos”.

O que ainda não tinha sido elucidado, até agora, era o que ativa essa liberação mútua do hormônio e se existe uma reação de causa e efeito entre cães e donos. A pesquisa japonesa publicada esta semana na Science, além de mostrar que o contato físico não é suficiente para disparar a reação, indica que a ocitocina intermedia um ciclo neural em loop compartilhado pelas duas espécies.

Em outras palavras, quando um cão olha para seu dono e é correspondido, ele passa a produzir ocitocina, que o estimula a continuar com a interação. Do outro lado, ao olhar e ser olhado por seu cão, o dono também produz ocitocina, que o induz a manter o contato. Assim um ciclo hormonal se alimenta. Um ciclo de carinho e amor.

Como a descoberta foi feita 
A descoberta foi feita por meio de dois experimentos que analisaram o comportamento de cães e seus donos ao estarem juntos e os níveis de oxitocina na urina de ambos após a interação. No primeiro teste, os cientistas colocaram em uma sala cães e seus donos e documentaram cada ação entre eles — como os toques, os olhares e as vocalizações. Após o contato, eles examinaram a urina dos humanos e dos animais e observaram altas concentrações de oxitocina.

No segundo teste, os pesquisadores espirraram oxitocina diretamente no nariz dos cães e os colocaram em uma sala com seus donos e pessoas desconhecidas para eles. Dessa vez, os donos foram instruídos a não tocar ou falar com cães. O experimento também foi repetido com animais que não receberam o spray. Os cientistas notaram que as fêmeas que cheiraram a oxitocina passaram muito mais tempo olhando para os donos do que os animais que não receberam o estímulo. Os donos dessas fêmeas, por sua vez, apresentaram níveis mais elevados de oxitocina no exame de urina.

Confira o vídeo do segundo teste:

 

Para os pesquisadores, os resultados mostram que a oxitocina provoca um aumento da troca de olhares entre as duas espécies e que isso estimula a produção da substância em ambas. O fato de o efeito ter ocorrido apenas em fêmeas pode ser porque elas têm mais sensibilidade ao hormônio do que os machos.

“Em estudos anteriores, quando inibíamos a interação visual entre cães e donos, mas não o toque e a fala, o aumento da ocitocina desaparecia”, conta um dos pesquisadores, o veterinário Takefumi Kikusui da Universidade Azabu, dono de três cachorros que o motivaram a estudar o tema. “Essa evidência somada aos resultados desse estudo atual nos levam a crer que o olhar é fundamental —  algo que já tínhamos percebido intuitivamente no dia a dia com nossos cães.”

Mais adaptado impossível!
Os experimentos também foram conduzidos com lobos criados desde filhotes por humanos, mas o laço biológico não foi observado. Os níveis de ocitocina nos lobos e seus donos não mudaram quando em contato e o animais também não olharam nos olhos dos humanos. Os lobos geralmente usam o olhar direto como uma ameaça em situações de conflito.

Kikusui e seus colegas sugerem que essa ligação biológica é o mecanismo evolutivo que permitiu os 10 mil anos de convivência pacífica entre nós. Ao aprender a olhar nos olhos como forma de comunicação social, os cães garantiram espaço em nossa sociedade, em nossas casas e, em alguns casos, até em nossas camas! O que me leva a questionar quem é mais evoluído no sentido de adaptabilidade… O mundo é dos cães!

PS: Antes que surja a eterna e inútil querela entre amantes de cães e amantes de gatos, aviso que há esperança para os felinos. Segundo Kikusui, embora ainda não tenha sido observado, é possível que esta ligação venha a aparecer entre humanos e outros animais com quem convivemos e trocamos olhares, como os gatos.

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