Afinal, o que aconteceu com o buraco da camada de ozônio?

Passados trinta anos de sua descoberta, o buraco continua lá e maior do que nunca; embora a caminho da recuperação.

ozonioHá 30 anos os cientistas ingleses Farman, Gardiner and Shanklin publicavam um artigo na revista Nature em que descreviam a descoberta de uma grande falha na camada de ozônio ao redor do pólo Sul da Terra. O achado foi um grande susto para a comunidade científica internacional e também para a população. Quem não se lembra do clima de preocupação com o buraco que deixava a radiação UV chegar superfície e que poderia causar câncer de pele em todos? Era o equivalente ao aquecimento global há alguns anos. Mas todo o frisson foi perdendo fôlego e hoje fica a pergunta: afinal, o que aconteceu com o buraco da camada de ozônio?

O assunto saiu da pauta muito por conta do fim do uso dos temíveis gases clorofluorcarbonos, os CFCs, aplicados na fabricação de produtos como aerossóis, aparelhos de ar condicionado, espumas plásticas, refrigeradores e isopores. Quando liberados na atmosfera, esses compostos se decompõem e o cloro presente neles destrói o ozônio da estratosfera, que funciona como um protetor natural contra os raios UV do sol. Em alta intensidade, a radiação UV pode provocar o câncer de pele, além de cegueira e alterações no plâncton dos oceanos que desregulam a cadeia alimentar. Os CFCs foram banidos em 1887 pelo Protocolo de Montreal, assinado por mais de 150, inclusive o Brasil.

A medida freou a destruição da camada de ozônio, mas o buraco, ou melhor os buracos ainda estão lá. Os últimos dados do Ozone Hole Watch, serviço da Nasa que controla a progressão do fenômeno, mostram que a área total dos buracos soma 24 milhões de quilômetros quadrados, quase o tamanho dos Estados Unidos inteiros.

Podemos então dizer que a situação está controlada e que estamos seguros? “Não podemos declarar que estejamos seguros. O buraco na camada de ozônio continua lá e seus efeitos também podem ser sentidos”, responde o chefe do setor de atmosfera do Goddard Space Flight Center da Nasa Paul A. Newman.

Embora não haja um estudo epidemiológico que compare a incidência de câncer de pele com a exposição aos raios UV devido ao buraco na camada de ozônio, estimativas sugerem que haverá um aumento progressivo dos casos da doença, especialmente em populações de peles claras e de regiões de altas altitudes. Calcula-se que, até 2050, a incidência de câncer de pele nesse grupo cresça entre 5% e 10%.

O vídeo mostra a destruição da camada de ozônio de 1979 a 2004 (área em roxo):

O buraco está a caminho da recuperação, mas, segundo Newman, continua enorme porque o tempo de vida dos CFCs é grande. O CFC-11, por exemplo, leva 52 anos para se decompôr e o CFC-12 mais de 100 anos. “Nos anos 1990, o nível dessas substâncias chegou a um pico e 100% da camada foi destruída entre 12 e 20 km em cima da Antártica. Apesar do Protocolo de Montreal, elas vão continuar por aí por muitas décadas. Mesmo hoje, estamos respirando CFCs que foram liberados no anos 1980!”, comenta.

Recuperação lenta
Os cientistas esperam uma recuperação vagarosa. Os níveis de CFCs na atmosfera só devem voltar ao patamar de 1980 daqui 55 anos, em 2070. E neste intervalo é possível que o buraco passe por períodos de aumento. “Olhando para os dados de maneira global, o buraco não está piorando e temos certeza de que vai regredir, mas também esperamos que buracos ainda maiores apareçam nas próximas duas décadas e associados a eles vamos ter um aumento de radiação UV na superfície”, prevê Newman.

Passado o período crítico da década de 1980, quando os buracos se proliferavam rapidamente, a área total do buraco tem se mantido mais ou menos estável desde os anos 2000 com alguns picos. Em 2006, por exemplo, o rombo teve seu ápice histórico e alcançou 29,6 milhões de km2. O cientista explica que essas variações se devem às diferenças do clima. Anos com temperaturas mais frias na estratosfera da Antártica levam a buracos maiores e anos mais quentes a buracos menores.

Segundo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP, na sigla em inglês), se o buraco regredir como esperado, a partir de 2030 serão prevenidos dois milhões de casos de câncer de pele por ano em relação a um cenário sem proibição dos CFCs. Tudo isso graças ao esforço coletivo de proibição dos CFCs.

Esforço coletivo
A preocupação geral com o buraco na camada de ozônio foi morrendo, mas a experiência com a proibição dos CFCs poderia servir de exemplo atualmente em relação ao aquecimento global, situação que também requer uma mobilização política de nível internacional. Embora sejam problemas diferentes, os dois estão intimamente ligados.

Há quem se preocupe que a recuperação da camada de ozônio aumente as mudanças climáticas com um aquecimento local na Antártica. Isso porque o buraco da camada têm um efeito “resfriante”. Quando o ozônio está lá, ele absorve o calor dos gases-estufa liberados na atmosfera. A perda do ozônio faz com que mais calor escape para o espaço e a atmosfera resfrie. Mas isso não quer dizer que o buraco seja benéfico. Ele apenas mascara os efeitos do aquecimento global.

O vídeo mostra o que aconteceria se os CFCs não fossem proibidos. A diferença fica vísivel a partir de 2030.

Se não fosse o fim dos CFCs a situação climática estaria ainda pior. Os CFCs não só causam danos à camada de ozônio, como também provocam o efeito estufa e com mais intensidade que o tão falado CO2. Um quilo de CFC-12 equivale a 10.200 quilos de CO2 em termos de aquecimento provocado em 100 anos.

Poderia então o Protocolo de Montreal servir de inspiração para a política atual em relação ao aquecimento global? “A diferença entre a regulação dos CFCs e dos combustíveis fósseis é grande”, diz Newman. “No entanto, a tratado demonstrou que todas as nações da Terra podem concordar com a ciência, com o problema e com a solução. E mais, que podem colocar em prática a solução.”

Será?

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