Camundongos, iPads e milk shake contra o Alzheimer

 

Antes que o leitor se confunda: tomar milk shake ou passar horas no iPad não curam Alzheimer. Muito menos camundongos. A ligação entre esses elementos aparentemente estranhos entre si é uma pesquisa que vem sendo conduzida por cientistas brasileiros no Robarts Institute, da Universidade de Western Ontario, no Canadá.

Marcos Prado e sua esposa Vânia Prado vem usando iPads em experimentos com camundongos para entender o desenvolvimento do Alzheimer e seus sintomas. Diferentes drogas são aplicadas nos animais na tentativa de encontrar um tratamento para a doença e os ipads ajudam a avaliar a eficiência desses medicamentos.

No laboratório, os pesquisadores treinaram camundongos na tarefa de jogar uma espécie de jogo da memória em iPads. Os tablets colocados nas gaiolas dos animais exibem três figuras lado a lado: uma flor, uma aranha e um avião. Em seguida as imagens se apagam e aparece na tela uma das figuras. A tarefa do camundongo é tocar na área da tela onde esta imagem apareceu anteriormente ao lado das demais. Se ele errar, uma luz de acende e ele não ganha nada. Se acertar, a recompensa é um pouco de milk shake de morango!

“É incrível a inteligência dos camundongos, muita gente não acredita que não-primatas poderiam fazer esse tipo de tarefa, mas podemos treiná-los para fazer muita coisa!”, diz Marcos Prato, que já estuda o Alzheimer há mais de sete anos e apresentou suas pesquisas durante o Congresso Mundial do Cérebro (IBRO 2015), realizado pela primeira vez na América Latina, no Rio de Janeiro nesta semana.

O “jogo” vem sendo aplicado a grupos de animais saudáveis e modelados para exibir as características do Alzheimer. Isso permite aos pesquisadores identificar as diferenças no desempenho de ambos os grupos e comparar a performance antes e depois da aplicação de certas drogas candidatas para o tratamento da doença.

Sem a intervenção com medicamentos, os animais saudáveis acertam entre 90% e 100% das jogadas, enquanto os animais doentes não passam de 60% de acertos. Os pesquisadores trabalham com 48 gaiolas com tablets no momento. Os testes com cada animal levam uma hora. Com o método, em somente 2 horas de trabalho, eles conseguem testar os efeitos cognitivos de até cinco medicamentos em 300 camundongos por dia. “A gente quer testar tipos de tratamento diferentes e com essa proposta conseguimos fazer isso muito bem”, comenta Marco Prado.

Para além do fascínio pela tecnologia, o uso dos tablets tem uma razão. O pesquisador explica que é muito mais fácil processar os dados do estudo dessa forma. Com os iPads, o score dos camundongos é registrado em tempo real e já vai para uma base de dados. Assim é possível analisar um grande volume de dados de uma vez. Todo o processo é automatizado, afinal não temos tempo a perder. Conforme a população envelhece, os casos de Alzheimer se tornam cada vez mais comuns. Previsões do IBGE apontam que, em 2025, 32 milhões de pessoas terão a doença no Brasil, o equivalente a 15% da população do país.

“Parece que há muitas pesquisas em Alzheimer, mas não há”, pontua Prado. “Investe-se muito mais em outras doenças como o câncer, mas a realidade é que com o aumento da expectativa de vida é inevitável que as pessoas passem a ter mais Alzheimer.”

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