Repressão na academia

Passados 30 anos do fim do Regime Militar no Brasil, o tema ainda permeia conversas e produções culturais. Não faltam livros, filmes e documentários para lembrar a época e as tensões e violações de direitos humanos que a acompanharam. Dramas que permearam todas as esferas, públicas e privadas, e inclusive a academia. Um portal criado por pesquisadores brasileiros aborda justamente a história de cientistas e professores universitários que tiveram suas carreiras e vidas afetadas pela ditadura que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985.

O “Ciência na Ditadura” funciona como uma espécie de enciclopédia sobre o tema. Nomes de quase 500 cientistas brasileiros afetados pelo regime estão listados em ordem alfabética acompanhados de verbetes informativos sobre sua história. São pesquisadores que foram presos, torturados, assassinados, exilados, demitidos, aposentados, submetidos a inquéritos militares, que tiveram suas publicações proibidas ou tiveram que se demitir ou fugir do país por perseguição política.

O coordenador do projeto, o físico Alfredo Tomasquim, pesquisador do Museu de Astronomia (MAST) e responsável pelo Observatório do Amanhã do Museu do Amanhã, conta que a ideia da iniciativa surgiu no ano passado, em razão dos 50 anos do golpe. “Nos demos conta de que, apesar dos inúmeros trabalhos de qualidade sobre a atuação da ditadura nas universidades e nos institutos de pesquisa, inexistia um levantamento consolidado que nos permitisse saber quantos cientistas foram de fato afetados pelos expurgos e perseguições e quais os caminhos que cada um tomou a partir de então”, pontua.

O objetivo de Tomasquim e dos outros pesquisadores envolvidos no portal é apresentar a real dimensão e o impacto da repressão política sobre a atividade acadêmica no Brasil. 

Dentre os dos cientistas listados no site está o professor José Leite Lopes, físico do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e professor da então Universidade do Brasil que é considerado um marco na consolidação da física moderna no país. Lopes foi acusado de ligação com o comunismo e exilado continuou suas pesquisas na Universidade Louis Pasteur, na França.

“Ele que foi alertado pela embaixada americana que havia planos para raptá-lo, matá-lo e lançar o corpo no mar”, conta Tomasquim. “Estive com um de seus orientandos na época, o também físico João dos Anjos, que comentou que havia marcado uma reunião com ele para discutir a tese e encontrou-o arrumando os papéis. Ele então o orientou de fato: ‘meu filho, estou indo embora e sugiro que você faça o mesmo!’.”

Outras histórias tiveram um final mais radical. Como o caso da professora do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), Ana Rosa Kucinski Silva e seu marido Wilson Silva. Os dois integravam a Ação Libertadora Nacional (ALN) e foram dados como desaparecidos em abril de 1974. A USP chegou a afirmar que houve abandono de emprego. Recentemente, com os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, ficou comprovado que ambos foram mortos por agentes da repressão.

Além de disponibilizar essas histórias para o público, o projeto visa congregar dados para fazer uma cartografia dos atingidos pela repressão, revelando, por exemplo,  faixa etária mais afetada, área do conhecimento, proporção entre homens e mulheres, entre outros aspectos.

O projeto está aberto à colaboração do público que pode contribuir com novas informações ou correções pelo e-mail ciencianaditadura@mast.br.

Conheça alguns pesquisadores e professores perseguidos durante a ditadura:

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