Pesquisadores infectam minicébros para entender relação entre zika e microcefalia

Em laboratório, cientistas vão observar de perto como o vírus pode estar afetando o desenvolvimento cerebral dos fetos.

minicérebroO Brasil registra hoje quase 3 mil casos suspeitos de bebês nascidos com microcefalia, possivelmente relacionados à infecção por zika vírus pelas gestantes. Uma epidemia que tem deixado a população e a comunidade cientifica confusas. Em busca de respostas para o fenômeno, pesquisadores da UFRJ, Fiocruz e Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) vão se valer de uma estratégia inédita e bem interessante: infectar com o zika vírus minicérebros criados em laboratório.

Os mini-cérebros ou organoides cerebrais são o modelo mais preciso do cérebro humano que se pode criar hoje em laboratório. Obtidos a partir de células-tronco humanas, eles têm apenas milímetros e mal podem ser vistos a olho nu, mas se comportam como o cérebro de um feto em desenvolvimento. Em todo o mundo poucas equipes de pesquisa dominam a técnica para criar essas estruturas. No IDOR, a equipe do neurocientista Steven Rehen cria esses minicérebros para estudar doenças neuropsiquiátricas. Agora, eles serão colocados a serviço da pesquisa sobre o zika vírus.

Os pesquisadores das três instituições pretendem infectar os mini-cérebros com o zika vírus usando o soro de pacientes que tiveram a doença. “Os mini-cérebros são um modelo muito bom porque são células humanas e refletem exatamente o desenvolvimento cerebral dos fetos”, diz a biomédica especialista em microcefalia Patrícia Garcez, que representa a UFRJ e o IDOR no estudo. “Não conseguiríamos ter a mesma qualidade de observação usando camundongos, pois a camada cerebral afetada pela microcefalia se forma de maneira diferente nos roedores.”

minicererbos02

Apesar de não estar claro ainda para os cientistas como o zika vírus pode provocar a microcefalia, eles sabem que a má-formação ocorre por alterações na formação dos neurônios, etapa que ocorre nos primeiros 4 meses da gestação. Os cientistas vão realizar os testes com mini-cérebros dessa mesma idade e olhar especialmente para o primeiro mês de vida dos organoides, quando os neurônios começam a surgir.

Até hoje a microcefalia era considerada um doença rara de origem genética, ocasionada por alterações nos genes associados às funções do centrossoma — organela importante para a correta estruturação das células. Com o recente surto, os pesquisadores precisam entender por que a doença está surgindo em pessoas que não possuem mutações genéticas

Sabe-se que na microcefalia de origem genética as alterações nos centrossomas acarretam em atraso no ciclo celular, gerando redução na quantidade de neurônios e a consequente diminuição no tamanho do cérebro. Os pesquisadores acreditam que o zika vírus pode estar provocando o mesmo efeito nos bebês das gestantes infectadas.

“Ainda não sabemos o que vamos encontrar, mas temos algumas hipóteses”, conta Garcez. A pesquisadora explica que há duas possibilidades: ou o zika vírus causa diretamente as alterações que levam à microcefalia ou ele produz substâncias que afetam o desenvolvimento neural. Saber como o vírus atua pode abrir caminho para futuros tratamentos e estratégias de prevenção.

Zika e Dengue

Os cientistas também irão infectar os mini-cérebros com o soro de pacientes que  tiveram dengue, além do zika. O experimento se baseia na hipótese de que o vírus da dengue seja o responsável pela passagem do zika vírus para a placenta. É a primeira vez que se observa um vírus transmitido por mosquito com a capacidade de ultrapassar a barreira que existe entre a corrente sanguínea da mãe e a placenta, que nutre o bebê.

“Talvez o vírus da dengue, com quem já convivemos há mais tempo, tenha provocado uma ativação do nosso sistema imune gerando anticorpos que facilitam a entrada do zika na placenta”, comenta Patricia Sequeira, pesquisadora da Fiocruz que vai infectar os mini-cérebros. Segundo essa hipótese, os anticorpos produzidos pelo corpo para combater a dengue estariam funcionando como um cavalo de Tróia, levando o zika vírus para a placenta do bebê.

A hipótese faz sentido quando olhamos para os dados mais recentes sobre ambas as doenças no Brasil. O surto de microcefalia apareceu no ano em que o país registrou a maior quantidade casos de dengue da história. Em 2015, foram  1.649.008 casos prováveis de dengue no país segundo relatório epidemiológico do Ministério da Saúde. A maior incidência desde que os dados começaram a ser coletados, em 1990.

Os minicérebros já estão prontos e devem ser infectados agora no início do ano. As primeiras observações devem ser feitas pela equipe de pesquisa em março se o cronograma for seguido.

A pesquisa tem orçamento estimado de R$ 600 mil, que os pesquisadores esperam conseguir com um edital da Faperj e apoio do Ministério da Saúde. O jeito é torcer para que a crise não atrapalhe.

Advertisements

2 thoughts on “Pesquisadores infectam minicébros para entender relação entre zika e microcefalia

  1. Acompanhando o caso, ansioso para que a nossa mídia consiga publicar esses resultados com o mínimo de cuidado; coisa que você, Sofia, faz muito bem! Artigo bem detalhado, com ótimo uso da nomenclatura e da semântica científica! Parabéns!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s