Zica, cérebros, fetos e adultos

Pesquisa brasileira com minicérebros publicada na Science comprova relação entre o vírus e a morte de células neurais em estágio embrionário, enquanto dados epidemiológicos apontam para danos também em adultos

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Os cientistas infectaram neuroesferas (marrom) com zika vírus (laranja) para observar o efeito do patógeno sobre as células neurais. (foto: Rodrigo Madeiro)

Dois estudos brasileiros divulgados neste final de semana confirmam desconfianças da ciência e ajudam a compreender melhor as diversas facetas dos impactos do zika vírus sobre o cérebro de fetos e adultos.

Um deles, publicado na Science por um grupo de pesquisadores da UFRJ, do IDOR e da Unicamp, comprova pela primeira vez com experimentos in vitro a capacidade do vírus de matar células neurais em desenvolvimento, o que pode explicar o recente surto de microcefalia em bebês que tem assolado o país.

A pesquisa, que utilizou mini cérebros criados em laboratório, já havia sido abordada em detalhes aqui no blog quando ainda era uma ideia no papel, em janeiro. O estudo foi colocado em prática rapidamente graças à cooperação entre as instituições usando verbas não específicas do BNDES, Capes, CNPq, Finep e Faperj e publicada online como pre-print sem revisão por pares em março, antes do aceite da Science.

Os mini-cérebros ou organoides cerebrais são um modelo preciso do cérebro humano em estado embrionário obtido a partir de células-tronco humanas, que têm a capacidade de se transformarem em qualquer tecido. As estruturas possuem apenas milímetros e mal podem ser vistas a olho nu, mas se comportam como o cérebro de um feto em desenvolvimento.

Em todo o mundo poucas equipes de pesquisa dominam a técnica para criar essas estruturas, que curiosamente estrearam na literatura acadêmica justamente em um estudo sobre microcefalia, não relacionado à zika, publicado pela jovem Madeline Lancaster na Nature em 2013.

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No estudo brasileiro, mini cérebros e também neuroesferas (estruturas semelhantes, mas menos refinadas, formadas por células tronco neurais ainda não transformadas em neurônios) foram infectados com o vírus da zika. Os pesquisadores observaram que o vírus penetrou nas mitocôndrias e nas vesículas das células das neuroesferas provocando a sua morte por apoptose, uma espécie de autodestruição comum nas infecções por vírus. Já os mini cérebros, após 11 dias de infecção, tiveram seu crescimento reduzido em 40% em comparação com as estruturas não infectadas.

Os mini cérebros infectados tinham a estrutura semelhante a de um cérebro de um feto de dois meses. Além de mostrar os efeitos do vírus sobre um cérebro dessa idade, o estudo pode ajudar no desenvolvimento e testagem de drogas contra a doença.

“Os mini cérebros são um modelo também para testar possibilidades de tratamento”, afirmou o neurocientista Stevens Rehen, da UFRJ e IDOR, que assina o estudo ao lado de Patricia Garcez e mais quatro brasileiros.

zika-mini-cerebrosOs pesquisadores também repetiram os testes usando vírus da dengue, mas este não demonstrou a mesma capacidade de matar as células cerebrais, o que reforça a ideia de que as malformações cerebrais observadas recentemente nos bebês são realmente obra única do vírus da zika.

Mais estudos ainda são necessários, porém, para caracterizar as consequências da infecção por zika vírus nos diferentes estágios do desenvolvimento fetal e compreender os mecanismos que levam ao surgimento da microcefalia nos bebês.

Adultos também

O segundo estudo publicado nesse final de semana é da médica Maria Lúcia Brito Ferreira, chefe do Serviço de Neurologia do Hospital da Restauração (HR), em Recife (PE). Ferreira reforça a ligação entre o zika vírus e uma complicação neurológica em adultos, similar à esclerose múltipla, que ataca a mielina do cérebro — estrutura lipoproteica que envolve os axônios e protege o circuito neural.

A possibilidade tem por base o acompanhamento de pacientes que procuraram o hospital recifense com sintomas de zika, dengue e chicungunha entre dezembro de 2014 e junho de 2015.

No período, seis pessoas tiveram a infecção por zika confirmada com exames laboratoriais, das quais duas desenvolveram encefalomielite aguda disseminada – uma doença inflamatória do sistema nervoso central que pode ocorrer após um quadro de infecção. Em ambos os casos, exames de imagem mostraram sinais de danos à substância branca e à medula espinhal chegando à mielina. Já as outras quatro pessoas infectadas tiveram a síndrome de Guillan Barret, anteriormente associada à zica.

Os pacientes ainda hoje apresentam problemas motores, de memória e raciocínio.

“Embora nosso estudo seja pequeno, ele provê evidências de que o vírus tem capacidade de produzir outros tipos de danos cerebrais”, diz Ferreira, que vai apresentar seus dados na 68ª Reunião Anual da Acadmeia Americana de Neurobiologia em Vancouver, Canadá, no dia 15 de abril. “Vamos precisar de mais estudos para poder afirmar que existe um vínculo causal entre o zika e esses problemas, e esses dados são importantes nesse cenário.”

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