Bye bye, Brasil e o verbo come solto entre os que ficam

A semana inciou com a notícia de que a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, referência internacional na área de morfologia cerebral, vai deixar o país e o laboratório que mantém no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) na UFRJ, por uma vaga na Universidade Vanderbilt, em Nashville (EUA). Suzana já vinha falando abertamente na mídia sobre as dificuldades de se fazer pesquisa no Brasil, com falta de recursos e infra-estrutura.

A cientista, uma das poucas expoentes da comunidade científica nacional a publicar em revistas como a Science, contou que já chegou a colocar dinheiro próprio no laboratório para fazer pesquisa e recorreu a meio inusitados de financiamento, como o vaquinha virtual ou crowdfunding. A frase final de um artigo escrito por ela há alguns meses na revista Piauí resume bem o estado da coisa e parece justificar a sua decisão: “Fazer mágica é bom, mas cansa. Queria poder ser apenas cientista.” Não precisa nem dizer que fora do país a pesquisadora vai encontrar um ambiente bem favorável para desenvolver seus experimentos.

A novidade, no entanto, não foi bem recebida por colegas de Suzana que também são considerados referências na área de neurociências e, por coincidência ou não, também de divulgação científica, como Roberto Lent e Stevens Rehen. Lent, em postagem em seu Facebook, criticou a postura de Suzana defendendo que é preciso “resistir e lutar”. O cientista adotou um utópico e nacionalista, afirmando que “o Brasil é para os fortes!” e “a solução não é abandonar o barco, e sim resistir e lutar” e ainda parabenizou o colega Rehen por ficar no país. Rehen compartilhou o post do colega com a mensagem “Eu não quero fazer sucesso, eu quero é fazer sentido.”

Essas movimentações facebuqueanas da manhã geraram um enxurrada de comentários nas redes sociais, elevando ânimos de todas as correntes de pensamento, despertando solidariedade, mágoas e reflexões.

Roberto foi uma espécie de mentor de Suzana e co-autor da pesquisa a levou ao reconhecimento mundial, um estudo de 2009 que derrubou a ideia até então estabelecida de que o cérebro humano tinha cerca de cem bilhões de neurônios. Suzana, que começou fazendo pesquisa em um espaço cedido no laboratório de Roberto, chegou a conclusão com uma técnica que desenvolveu para contar com precisão o número de células que formam o órgão. Roberto é, assim como Suzana e Stevens, uma”celebridade da ciência” com livros didáticos e para o público leigo publicados. Se dedica hoje ao estudo de alterações cerebrais, como a disgenesia do corpo caloso,  e a um projeto de levar ciência para o a educação, a Rede Nacional de Ciência para Educação, a qual, devo dizer, eu apoio na comunicação.

Já Stevens Rehen também compartilha com Suzana a lista de pesquisadores que publicaram na Science e, assim como ela, lutou contra as adversidades para conseguir um espaço na universidade para fazer pesquisa — começou seu laboratório em um banheiro do hospital universitário. Recentemente, Rehen ganhou espaço na mídia com as notícias sobre as pesquisas que seu grupo vem desenvolvendo usando mini cérebros para entender a infecção pelo zika vírus e os casos de microcefalia em fetos (noticiadas aqui no blog).

Tanto Rehen quanto Lent são do professores do ICB, mas contam com a apoio do Instituto D’Or de Pesquisa em Ensino (Idor), uma associação sem fins lucrativos ligada à Rede D’Or de hospitais que lhes provê a infra-estrutura necessária para o desenvolvimento de suas pesquisas por meio de uma parceria com a UFRJ. A maior parte das verbas continua sendo pública oriunda de editais, mas, na instituição privada (da qual já fui funcionária da comunicação, devo dizer), os pesquisadores encontram uma infra-estrutura predial mais adequada e menos entraves burocráticos que na universidade.

A parceria público-privada, tema polêmico e que também divide ânimos na academia, foi citado na reposta de Suzana às críticas de Lent. Depois de repudiar a afirmação do ex-mentor de que o anúncio de sua saída seria “capitulação”, a cientista provocou: “Então eu deveria ter ido embora quietinha, Roberto, sem chamar atenção? Isso, sim, teria sido um desserviço à ciência brasileira. Que bom que os jornais se interessaram por minha matéria da piauí e resolveram fazer sua parte. Os inúmeros cientistas que se reconhecem na mesma situação que eu, não amparados por uma rara instituição privada de Pesquisa como o Idor, como Roberto e Stevens Rehen agradecem.”

Stevens já disse à imprensa e aos blogs, mais de uma vez, que é um otimista. Faz críticas a situação de engessamento na ciência tão batida por Suzana ao longo dos anos, mas se diz adepto das soluções, uma delas advinda das parcerias público-privadas. Após as reações iniciais a sua postura sobre a partida da colega, algumas de apoio outras de repúdio, Rehen adotou um tom mais conciliador, lançando a hashtag #soqueroserfeliz parafraseando frase célebre do poeta Ferreira Gular, Eu não quero ter razão, eu só quero ser feliz.  “Tenho grande admiração e respeito pelos que optaram por sair, não menor do que pelos que ficam. As críticas sobre a gestão nacional da ciência vindas dessa galera que partiu são muito pertinentes e merecem reflexão mas suas decisões de vida são individuais e não decretam o fim da ciência brasileira. Pelo contrário, só confirmam que a ciência é internacional e o cientista um cidadão do mundo! Temos muito a fazer pelo Brasil, tanto aqui quanto no exterior”, escreveu em sua página do Facebook, antes de começar a compartilhar casos de cientistas que ficaram no Brasil apesar das adversidades, ou que retornaram ao país depois de um período no exterior. Rehen costuma dizer que aposta na “internacionalização da ciência brasileira”, trazendo gente de fora ou formada no exterior para fazer ciência aqui no país e não o contrário.

O caso é emblemático. Uma só decisão pessoal abriu espaço para debater a crise da ciência brasileira, a precarização da universidade, a burocracia das agências de fomento, financiamento de pesquisa, interface público e privado e até temas mais subjetivos, como a carreira profissional e uma visão nacionalista sobre ciência e suas fronteiras.  Não tenho opinião formada sobre os posicionamentos de cada um. No final, me compadeço com a situação de todos. Mas o futuro a Deus pertence, literalmente. Quem sabe no próximo governo todos os problemas não se resolvem com uma prece?  (sarcarsmo alert).

*O post é apenas uma compilação das repercussões da notícia, sem juízos atrelados.
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