Primeiro foi o escândalo da carne adulterada evidenciado pela maior operação da história conduzida pela Polícia Federal. Brasileiros carnívoros invictos foram à loucura com a possibilidade de encontrar papelão, vitamina C e salmonela no seu bifinho. Mas o que deixou as pessoas realmente revoltadas, atingindo carnívoros e vegetarianos, foi a notícia de hoje sobre a “paçoca proibida pela Anvisa por conter substâncias cancerígenas”.

As manchetes, extremamente sensacionalistas, não dizem que o caso se trata de uma contaminação comum ao amendoim e que apenas uma marca de paçocas com um lote específico foi atingido: o lote 0027 do Doce de Amendoim Paçoca Rolha, marca Dicel.

Como são raros os espécimes humanos habitantes de redes sociais que leem mais do que o título das reportagens, a notícia vem sendo compartilhada como se todas as paçocas do Brasil estivem com venda vetada!

O que as reportagens também não dizem é que a contaminação por  aflatoxinas é tão comum no amendoim quanto o caruncho no feijão. Tanto que a Anvisa estabelece um limite aceitável (20 μg/kg)para a presença da substância, que é produzida naturalmente por fungos (Aspergillus flavus e A. parasiticus) comuns em lavouras de grãos.

Uma pesquisa realizada pela toxicologista Eloisa Caudas, da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília, em 2002, analisou cerca de 60 quilos de amendoins e derivados no Distrito Federal e revelou que 34,7% desses alimentos continham níveis de aflatoxinas acima dos permitidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Não coincidentemente a marca agora condenada é também do DF.

“A exposição humana a micotoxinas através do consumo de alimento contaminado é uma questão de saúde pública no mundo todo”, diz Caudas. “A contaminação dos alimentos pode ocorrer no campo, antes e após a colheita, e durante o transporte e armazenamento do produto.”

E o câncer? Sim, é verdade e não é só isso. A exposição a aflatoxinas durante muito tempo em altas concentrações pode provocar câncer de fígado. Doses altas consumidas de uma única vez pode causar aflatoxicose, caracterizada pelo dano agudo ao fígado que pode culminar em morte.

Até hoje, os únicos surtos da doença registrados no Brasil foram em suínos e bezerros, devido a  dieta de ração contaminada.

“Não é incomum os níveis estarem acima daqueles estabelecidos pela legislação”, diz a pesquisadora. “Há algumas substâncias nocivas às quais o homem está exposto desde que se entende por homem, dentre elas, as aflatoxinas, que são consideradas as micotoxinas (produzidas por fungos) mais tóxicas ao homem”, comenta a pesquisadora.

As aflatoxinas não são destruídas pelo calor e produtos de amendoim feitos com matéria prima contaminada também podem estar contaminados.

Para minimizar os riscos à saúde associados ao consumo de substâncias tóxicas presentes em alimentos, a toxicologista aconselha que as pessoas fiquem atentas à procedência de frutas, legumes e vegetais antes de comprá-los. Mas ela afirma que, apesar de tudo, é melhor comer esses alimentos do que evitá-los. “O risco à saúde sempre depende da dose a que a pessoa é exposta”, explica.  “Pelo histórico de contaminação destes produtos no Brasil, é improvável que o consumo de uma quantidade razoável de paçocas, com 5 unidades, por exemplo, leve a uma aflatoxicose.”

A exceção são as pessoas com hepatite, para as quais atenção deve ser redobrada, pois o fígado já comprometido pode não aguentar o baque da contaminação.

Então, se você não tem hepatite, não comeu paçoca Dicel nos últimos tempos, nem é daqueles que come quilos de amendoim por dia, fique tranquilo e não abandone sua paçoquita!

 

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