Cinema no DNA

Cinema no DNA
Pesquisadores usam CRISPR para codificar um filme no DNA de bactérias. O feito abre caminho para a criação de células-computadores capazes de capturar, estocar e propagar informação por conta própria

Tem gente que pensa que carrega a arte no DNA. Mas certa colônia de bactérias E. coli poderia se vangloriar realmente desse feito. As microscópicas causadoras de infecções intestinais foram as escolhidas para se tornarem o primeiro ser vivo a carregar literalmente um filme no material genético.

Usando o sistema CRISPR de edição genética, pesquisadores da Harvard Medical School e do Wyss Institute for Biologically Inspired Engineering incorporaram no DNA das bactérias o curta “Sallie Gardner at a Gallop,” de Eadweard Muybridge, um dos precursores do cinema. O vídeo simples e icônico mostra um cavalo em movimento.

A técnica de edição genética com CRISPR (lê-se crísper, sigla para Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats) tem dado o que falar recentemente. Trata-se de um mecanismo capaz de editar com precisão o material genético usando o “sistema imune” das bactérias, que evoluiu para protegê-las do ataque de vírus.

O CRISPR é uma molécula presente nesses microrganismos que juntamente com a proteína Cas9 funciona como uma tesoura inteligente que performa microcirurgias no DNA em locais específicos. No caso de um ataque de vírus à bactéria, esse sistema detecta uma determinada sequência de DNA do invasor e usa a Cas9 para cortar com precisão o material genético. Essa sequência é incorporada ao plasmídeo (DNA microbiano) e funciona como uma memória, servindo para ativar a defesa em um próximo ataque. Já para a ciência, o mecanismo tem sido usado para localizar e editar rápida e facilmente qualquer gene de qualquer célula desejada.

Foi esse recorta e cola que do CRISPR que permitiu aos pesquisadores editar o DNA da E.coli de modo a codificar os pixels que formam cada imagem (frame) que compõe o vídeo de Muybridge. Eles usaram sequências de bases de DNA específicas para representar cada cor que compunha as imagens. Para o filme todo forma usadas 520 sequências de DNA com 17.000 bases. Esses trechos foram introduzidos no plasmídeo das bactérias e depois “lidos” por um programa de computador para recompor as imagens originais pixel a pixel.

A partir do código de bases de DNA inscrito nas bactérias, foi possível “recriar” as imagens do filme com 96% de precisão.

Seres vivos ou máquinas?

Para além da curiosidade e do lado artístico, o feito pode abrir caminho para aplicações mais utilitárias envolvendo o uso de DNA para armazenar informações. Segundo os pesquisadores, O DNA tem a vantagem de ser um meio muito estável ao longo do tempo e capaz de guardar grande volume de informações. Alguns experimentos já haviam sido conduzidos usando bases de DNA para armazenar imagens, mas é a primeira vez que isso é feito com tal complexidade e em genomas de seres vivos.

“Com esse experimento empurramos os limites técnicos do ‘bio-armazenamento’ de informações e otimizamos estratégias nesse sentido”, me respondeu por e-mail um dos líderes da pesquisa, Seth Shipman, de Harvard. “Por ser estável, o DNA é ótimo para guardar informações que você não planeje acessar com frequência e o que fizemos foi um passo além, pois guardamos informação em uma célula viva. Não só tivemos que sintetizar os códigos de DNA, mas também entrega-lo às células e fazê-las incorporá-los ao seu genoma.”

Shipman conta que no futuro o experimento pode ser aperfeiçoado para que a própria célula passe a gravar em seu DNA informação. Uma célula poderia, por exemplo, gravar em tempo real em seu genoma informação sobre sua própria atividade. “Estamos usando as imagens e filmes como um piloto para um sistema piloto de ‘gravador molecular’. Esperamos conseguir usar esse mecanismo para saber coisas que hoje não sabemos, como o que se passa dentro das células. Essa informação seria gravada no genoma celular e nós poderíamos recuperá-la depois.”

É o limite entre seres vivos e máquinas ficando cada vez mais permeável.

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Não largue sua paçoca!

Não largue sua paçoca!

Primeiro foi o escândalo da carne adulterada evidenciado pela maior operação da história conduzida pela Polícia Federal. Brasileiros carnívoros invictos foram à loucura com a possibilidade de encontrar papelão, vitamina C e salmonela no seu bifinho. Mas o que deixou as pessoas realmente revoltadas, atingindo carnívoros e vegetarianos, foi a notícia de hoje sobre a “paçoca proibida pela Anvisa por conter substâncias cancerígenas”.

As manchetes, extremamente sensacionalistas, não dizem que o caso se trata de uma contaminação comum ao amendoim e que apenas uma marca de paçocas com um lote específico foi atingido: o lote 0027 do Doce de Amendoim Paçoca Rolha, marca Dicel.

Como são raros os espécimes humanos habitantes de redes sociais que leem mais do que o título das reportagens, a notícia vem sendo compartilhada como se todas as paçocas do Brasil estivem com venda vetada!

O que as reportagens também não dizem é que a contaminação por  aflatoxinas é tão comum no amendoim quanto o caruncho no feijão. Tanto que a Anvisa estabelece um limite aceitável (20 μg/kg)para a presença da substância, que é produzida naturalmente por fungos (Aspergillus flavus e A. parasiticus) comuns em lavouras de grãos.

Uma pesquisa realizada pela toxicologista Eloisa Caudas, da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília, em 2002, analisou cerca de 60 quilos de amendoins e derivados no Distrito Federal e revelou que 34,7% desses alimentos continham níveis de aflatoxinas acima dos permitidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Não coincidentemente a marca agora condenada é também do DF.

“A exposição humana a micotoxinas através do consumo de alimento contaminado é uma questão de saúde pública no mundo todo”, diz Caudas. “A contaminação dos alimentos pode ocorrer no campo, antes e após a colheita, e durante o transporte e armazenamento do produto.”

E o câncer? Sim, é verdade e não é só isso. A exposição a aflatoxinas durante muito tempo em altas concentrações pode provocar câncer de fígado. Doses altas consumidas de uma única vez pode causar aflatoxicose, caracterizada pelo dano agudo ao fígado que pode culminar em morte.

Até hoje, os únicos surtos da doença registrados no Brasil foram em suínos e bezerros, devido a  dieta de ração contaminada.

“Não é incomum os níveis estarem acima daqueles estabelecidos pela legislação”, diz a pesquisadora. “Há algumas substâncias nocivas às quais o homem está exposto desde que se entende por homem, dentre elas, as aflatoxinas, que são consideradas as micotoxinas (produzidas por fungos) mais tóxicas ao homem”, comenta a pesquisadora.

As aflatoxinas não são destruídas pelo calor e produtos de amendoim feitos com matéria prima contaminada também podem estar contaminados.

Para minimizar os riscos à saúde associados ao consumo de substâncias tóxicas presentes em alimentos, a toxicologista aconselha que as pessoas fiquem atentas à procedência de frutas, legumes e vegetais antes de comprá-los. Mas ela afirma que, apesar de tudo, é melhor comer esses alimentos do que evitá-los. “O risco à saúde sempre depende da dose a que a pessoa é exposta”, explica.  “Pelo histórico de contaminação destes produtos no Brasil, é improvável que o consumo de uma quantidade razoável de paçocas, com 5 unidades, por exemplo, leve a uma aflatoxicose.”

A exceção são as pessoas com hepatite, para as quais atenção deve ser redobrada, pois o fígado já comprometido pode não aguentar o baque da contaminação.

Então, se você não tem hepatite, não comeu paçoca Dicel nos últimos tempos, nem é daqueles que come quilos de amendoim por dia, fique tranquilo e não abandone sua paçoquita!

 

Brinquedo de papel se mostra boa ferramenta de diagnóstico

Um pedaço de papel e um barbante. Essa é a base de uma centrífuga de baixo custo inventada para separar o sangue em plasma e células vermelhas. A gambiarra parece coisa de brasileiro, mas foi obra de cientistas indianos, chineses e gregos radicados na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos. Uma ideia tão simples que a gente se pergunta como ninguém havia pensado nisso antes.

Por apenas 20 centavos de dólar, pesando 2g, a centrífuga de papel dispensa baterias ou eletricidade. É movida apenas à força do braço humano, que ao puxar o barbante gira o papel a uma velocidade de 125,000 rotações por minuto.  Em comparação, uma centrífuga portátil usada para a mesma finalidade não sai por menos de US$2.700 fora do Brasil.

Segundo os criadores, o dispositivo é o mais rápido já criado movido à força humana, o que lhes incentivou a entrar com um pedido no Guinness World Records.

“Nossso brinquedo é uma oscilador não linear e não conservativo: em cada ciclo a entrada de energia é introduzida pela mão humana e dissipada pelo sistema pela resistência do ar e pelo barbante”, explica o artigo, publicado nessa semana na Nature Biomedical Engeneering.

A centrífuga consegue separar mecanicamente o plasma das células sanguíneas em cerca de 15 minutos. Os criadores se gabam do feito contando que antes da invenção, outras gabiarras comumente usadas, como centrífugas de salada e batedores de ovos, pesavam mais, não ultrapassavam  1.200 rpm e levam mais tempo para fazer o trabalho.

A ideia por trás do dispositivo é poder ter fácil acesso à centrifugação em trabalhos de campo e ambientes sem recursos. “Todo laboratório de diagnóstico usa centrífugas e nós queríamos fazer uma extremamente acessível e barata para uso em países em desenvolvimento e regiões sem eletricidade”, conta Manu Prakash, um dos inventores.

A inspiração para a traquitana veio de brinquedos tradicionais. “Começamos observando brinquedos como o iô-iô e acabamos nos deparando com um chamado carrosel (whirligig). Vimos que ninguém entendia a física e a matemática por trás desse brinquedo, que não se move tão rápido assim. Mas quando entendemos esses parâmetros, conseguimos ajustar o dispositivo para torná-lo rápido o suficiente para separar do plasma células sanguíneas, parasitas da malária e todo tipo de parasitas.”

Os cientistas agora planejam disponibilizar o projeto da centrífuga para produção em quantidade ma material plástico em impressoras 3D.

Goles de ciência

Você tem um encontro marcado com cientistas no bar da esquina

pint

O pint é uma medida usada nos EUA e UK que equivale a cerca de 500ml. Mas nos bastidores do meio científico é sinônimo de reunião descolada para falar sobre ciência, regada à cerveja ou a outra bebida à escolha do freguês. Criado há quatro anos por pesquisadores britânicos, o Pint of Science já virou um festival internacional de divulgação científica que leva todos anos cientistas conceituados ao “bar da esquina” para falar de forma coloquial sobre suas pesquisas para quem tiver interesse em ouvir e interagir.

Hoje, mais de 100 cidades de 12 países recebem o evento. E o Brasil não está de fora. Nos dias 23, 24 e 25 de maio, a segunda edição nacional do Pint of Science vai rolar em bares, restaurantes e cafés de Belo Horizonte, Campinas, Dourados, Ribeirão Preto, São Carlos, São Paulo e Rio de Janeiro.

A coordenação no Brasil é da bacteriologista Natalia Pasternak, que escreve no blog o Café na Bancada. “Nesta época de obscurantismo e acesso fácil à desinformação, o Pint of Science surge como uma oportunidade de ser uma vela na escuridão, diminuindo o abismo entre os cientistas e a sociedade”, diz Natalia. “O evento também cria a oportunidade de estabelecermos uma comunicação mais informal, descontraída e humana, a fim de que possamos, todos juntos, oferecer um brinde à ciência”, acrescenta.

Aqui no Rio de Janeiro, o evento vai contar com participação de cientistas de peso do cenário nacional, como o neurocientista Stevens Rehen (IDOR/UFRJ), que cria mini cérebros para estudar doenças neurodegenerativas, o biólogo Rodrigo Brindeiro (UFRJ), envolvido em pesquisas de ponta sobre o vírus da zyka, e o físico Luiz Alberto Oliveira, curador do Museu do Amanhã. A entrada é gratuita!

Confira a programação:

2ª FEIRA – 23 DE MAIO – BAR DESACATO, LEBLON

O físico LUIZ ALBERTO OLIVEIRA, curador geral do Museu do Amanhã, e a diretora do Laboratório de Atividades do Museu MARCELA SABINO vão conversar com o público sobre O MUNDO DEPOIS DO SILÍCIO.

Como assim? Porque ao longo do século XX, o domínio das propriedades semicondutoras do silício iniciou um processo de miniaturização dos componentes dos objetos técnicos que gerou consequências e criou facilidades que hoje compartilhamos. Mas o século XXI está sendo marcado por inovações com um potencial ainda mais impactante: o grafeno e outras variantes do carbono, a fotônica, os chips quânticos, substratos líquidos, bioartefatos


3ª FEIRA – 24 DE MAIO – BAR DO ERNESTO, LAPA

O tema é o VÍRUS DA ZIKA, CHEIO DE SEGREDOS…
JERSON LIMA, MARIO SILVA-NETO e RODRIGO BRINDEIRO vão desvendar esse mistério.

Descoberto há 70 anos na floresta de Zika, em Uganda, o vírus Zika era considerado um primo inofensivo dos vírus da dengue e da febre amarela, pertencentes à mesma família do flavivírus e transmitidos pelo mosquito Aedes aegypti. A história mudou quando, no ano passado, descobriu-se no Brasil a associação do vírus Zika com a microcefalia, causada por infecção durante a gestação. 


4ª FEIRA – 25 DE MAIO – ESPAÇO CULTURAL OLHO DA RUA, BOTAFOGO

Você vai ter a oportunidade de tomar uma cerveja ou uma limonada com os neurocientistas STEVENS REHEN, FERNANDA TOVAR-MOLL e ROGERIO PANIZZUTTI sobre um assunto incrível: COMO AS TECNOLOGIAS ESTÃO RECONFIGURANDO NOSSOS CÉREBROS!

Sim, porque o cérebro é um órgão incrível. Novas tecnologias têm permitido visualizá-lo de uma maneira ainda mais espetacular, revelando surpresas sobre como os neurônios se comunicam, sobre saúde e doença. Essas novas tecnologias estão também subvertendo a evolução e reconfigurando nossas conexões cerebrais. Venha conversar com os cientistas sobre como será o cérebro pós tablets e smartphones!

Elo perdido – Mais perto de entender o zika

zica
Pesquisadores agora testam a ação da linhagem brasileira do vírus zika sobre células neurais.

As pesquisas sobre o zika vírus seguem a todo vapor. Somente no período de apuração deste texto, pelo menos 3 artigos científicos de relevância foram publicados sobre o assunto. A revista Nature de hoje traz um artigo com o primeiro modelo animal de infecção por zika e microcefalia, o elo que faltava para confirmar a causalidade entre o vírus e a malformação. O trabalho apresenta ainda novos resultados indicando que a linhagem do vírus que circula no Brasil é mais agressiva que a original africana e dados que podem ajudar a explicar por que algumas mães infectadas durante a gravidez têm bebês com danos cerebrais e outras não.

O trabalho, de pesquisadores brasileiros da USP e da Universidade da Califórnia (EUA), mostra em camundongos que o zika vírus ultrapassa a barreira da placenta e chega aos fetos provocando alterações neurológicas e em outros tecidos. É a primeira prova experimental desse processo.

“O modelo animal foi necessário para mostrar a causalidade do vírus zika brasileiro”, explica Alysson Muotri, da Universidade da Califórnia (EUA). “Não existe ainda nenhum modelo experimental humano que simule a proteção do feto pela placenta.”

Outro autor do estudo, o virologista Paolo Zanotto (USP), coordenador da rede que pesquisa o zika no Brasil, reforça que o estudo é importante para dar prosseguimento e ensaios pré-clínicos para o desenvolvimento de vacinas, terapias  e medicamentos antivirais.

Os pesquisadores infectaram fêmeas gestantes de dois tipos de camundongos, com características genéticas distintas, com a linhagem brasileira do vírus. Os filhotes de um desses tipos de camundongo nasceram com sinais de microcefalia, com redução da camada cortical do cérebro em metade do considerado normal, além de alterações em outros tecidos e tamanho corporal reduzido. Os do outro tipo de roedor, no entanto, não apresentaram alterações.

Segundo Muotri, essa diferença pode se dever às características genéticas distintas entre as duas “raças” de camundongos que levam a uma melhor resposta imune. O mesmo pode estar ocorrendo entre as mães humanas, que com perfis genéticos variados reagem de forma diferente à infecção. “Com essas duas linhagens de camundongos, conseguimos mostrar que a infecção pelo zika pode ser reprimida pelo sistema imune ou tipo genético”, diz.

Minicérebros em voga

O trabalho também analisou mini cérebros e neuroesferas (modelos do cérebro em desenvolvimento obtidos com células-tronco em laboratório) infectadas com o vírus, confirmando os resultados já apresentados por outro grupo de brasileiros na Science de que o zika provoca morte celular e redução de células do córtex cerebral em formação, alterações que podem ocasionar a microcefalia observada em bebês de mães infectadas pelo vírus durante a gravidez.

Os pesquisadores infectaram neuroesferas e mini cérebros humanos com ambas as linhagens de vírus zika, a “africana”, isolada de macacos, e a “brasileira”, extraída de amostras de pacientes no Nordeste. As neuroesferas infectadas com a variação brasileira do vírus sofreram mais redução de tamanho que as infectadas com a linhagem estrangeira. Esse resultado indica que linhagem de vírus que circula no Brasil é mais agressiva que a original e poderia explicar a maior incidência de casos de microcefalia por aqui.

Mini cérebro criado pela equipe de Alysson Muotri.
Mini cérebro criado pela equipe de Alysson Muotri. A região em verde representa as camadas corticais sendo formadas. (Muotri Lab/UCSD)

Além das células humanas, os pesquisadores infectaram, com as duas versões do vírus zika, mini cérebros obtidos a partir de células-tronco de chimpanzés . O vírus brasileiro não se replicou nessas amostras, ao contrário do africano. Os pesquisadores acreditam que isso se deve a mutações que o vírus sofreu por aqui, que o deixaram mais adaptado a infectar células-humanas.

“O vírus africano é 87-90% semelhante ao brasileiro. Essa diferença de 10% é, possivelmente, responsável pela sua agressividade”, afirma Muori. “Não sabemos quais foram as pressões evolutivas que fizeram o vírus da zika mutar no Brasil. O vírus africano já está circulando há mais de 70 anos e nunca causou microcefalia. O por que de o vírus brasileiro estar causando isso é uma questão ainda não respondida.”

Muotri pretende continuar a pesquisa para entender melhor as diferenças genéticas entre as duas linhagens de vírus e usar o modelo dos mini cérebros para testar algumas ideias terapêuticas, estratégia que vem sendo seguida também pelo grupo que publicou na Science, liderado por Patricia Garcez  e Stevens Rehen (UFRJ/IDOR).

Garcez comenta que o modelo animal apresentado por Muori pode ajudar no avanço de suas pesquisas por aqui, que também segue para o desenvolvimento de um modelo animal. “Fico extremamente feliz pelos pesquisadores brasileiros que conseguiram fazer um modelo tão relevante para as nossas próximas pesquisas”. A pesquisadora aponta, porém, que a carga viral utilizada na pesquisa da Nature é “brutal” e que seu grupo trabalha com quantidades equivalentes às observadas em pacientes humanos.

Nos mínimos detalhes

Outra pesquisa, publicada em formato pre-print (ainda sem revisão por pares) pelo grupo de Garcez e Rehen (UFRJ/IDOR) em colaboração UNICAMP, Fiocruz, Instituto Evandro Chagas de Belém e Universidade Federal do Pará pode contribuir ainda mais para desvendar o que faz com que o vírus brasileiro seja tão nocivo e para o desenvolvimento de um tratamento.

Usando neuroesferas infectadas, os pesquisadores identificaram cerca de 500 genes e proteínas que ficam alterados em humanos na presença do vírus brasileiro. Conhecendo esses alvos do vírus, fica mais fácil buscar um medicamento eficaz contra o vírus e seus danos no sistema nervoso.

“Esses dados estão abertos e permitem que pesquisadores do mundo todo entendam melhor como o zika age e possam pesquisar formas de inibi-lo”, pontua Patricia Garcez.

Por enquanto, uma droga já usada contra malária, a cloroquina, já se mostrou promissora. Estudos preliminares mostraram que a substância protegeu as neurosferas da morte celular em até 95%, inibindo a infecção e reduzindo o número de neurônios infectados.

 

 

 

Bye bye, Brasil e o verbo come solto entre os que ficam

A semana inciou com a notícia de que a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, referência internacional na área de morfologia cerebral, vai deixar o país e o laboratório que mantém no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) na UFRJ, por uma vaga na Universidade Vanderbilt, em Nashville (EUA). Suzana já vinha falando abertamente na mídia sobre as dificuldades de se fazer pesquisa no Brasil, com falta de recursos e infra-estrutura.

A cientista, uma das poucas expoentes da comunidade científica nacional a publicar em revistas como a Science, contou que já chegou a colocar dinheiro próprio no laboratório para fazer pesquisa e recorreu a meio inusitados de financiamento, como o vaquinha virtual ou crowdfunding. A frase final de um artigo escrito por ela há alguns meses na revista Piauí resume bem o estado da coisa e parece justificar a sua decisão: “Fazer mágica é bom, mas cansa. Queria poder ser apenas cientista.” Não precisa nem dizer que fora do país a pesquisadora vai encontrar um ambiente bem favorável para desenvolver seus experimentos.

A novidade, no entanto, não foi bem recebida por colegas de Suzana que também são considerados referências na área de neurociências e, por coincidência ou não, também de divulgação científica, como Roberto Lent e Stevens Rehen. Lent, em postagem em seu Facebook, criticou a postura de Suzana defendendo que é preciso “resistir e lutar”. O cientista adotou um utópico e nacionalista, afirmando que “o Brasil é para os fortes!” e “a solução não é abandonar o barco, e sim resistir e lutar” e ainda parabenizou o colega Rehen por ficar no país. Rehen compartilhou o post do colega com a mensagem “Eu não quero fazer sucesso, eu quero é fazer sentido.”

Essas movimentações facebuqueanas da manhã geraram um enxurrada de comentários nas redes sociais, elevando ânimos de todas as correntes de pensamento, despertando solidariedade, mágoas e reflexões.

Roberto foi uma espécie de mentor de Suzana e co-autor da pesquisa a levou ao reconhecimento mundial, um estudo de 2009 que derrubou a ideia até então estabelecida de que o cérebro humano tinha cerca de cem bilhões de neurônios. Suzana, que começou fazendo pesquisa em um espaço cedido no laboratório de Roberto, chegou a conclusão com uma técnica que desenvolveu para contar com precisão o número de células que formam o órgão. Roberto é, assim como Suzana e Stevens, uma”celebridade da ciência” com livros didáticos e para o público leigo publicados. Se dedica hoje ao estudo de alterações cerebrais, como a disgenesia do corpo caloso,  e a um projeto de levar ciência para o a educação, a Rede Nacional de Ciência para Educação, a qual, devo dizer, eu apoio na comunicação.

Já Stevens Rehen também compartilha com Suzana a lista de pesquisadores que publicaram na Science e, assim como ela, lutou contra as adversidades para conseguir um espaço na universidade para fazer pesquisa — começou seu laboratório em um banheiro do hospital universitário. Recentemente, Rehen ganhou espaço na mídia com as notícias sobre as pesquisas que seu grupo vem desenvolvendo usando mini cérebros para entender a infecção pelo zika vírus e os casos de microcefalia em fetos (noticiadas aqui no blog).

Tanto Rehen quanto Lent são do professores do ICB, mas contam com a apoio do Instituto D’Or de Pesquisa em Ensino (Idor), uma associação sem fins lucrativos ligada à Rede D’Or de hospitais que lhes provê a infra-estrutura necessária para o desenvolvimento de suas pesquisas por meio de uma parceria com a UFRJ. A maior parte das verbas continua sendo pública oriunda de editais, mas, na instituição privada (da qual já fui funcionária da comunicação, devo dizer), os pesquisadores encontram uma infra-estrutura predial mais adequada e menos entraves burocráticos que na universidade.

A parceria público-privada, tema polêmico e que também divide ânimos na academia, foi citado na reposta de Suzana às críticas de Lent. Depois de repudiar a afirmação do ex-mentor de que o anúncio de sua saída seria “capitulação”, a cientista provocou: “Então eu deveria ter ido embora quietinha, Roberto, sem chamar atenção? Isso, sim, teria sido um desserviço à ciência brasileira. Que bom que os jornais se interessaram por minha matéria da piauí e resolveram fazer sua parte. Os inúmeros cientistas que se reconhecem na mesma situação que eu, não amparados por uma rara instituição privada de Pesquisa como o Idor, como Roberto e Stevens Rehen agradecem.”

Stevens já disse à imprensa e aos blogs, mais de uma vez, que é um otimista. Faz críticas a situação de engessamento na ciência tão batida por Suzana ao longo dos anos, mas se diz adepto das soluções, uma delas advinda das parcerias público-privadas. Após as reações iniciais a sua postura sobre a partida da colega, algumas de apoio outras de repúdio, Rehen adotou um tom mais conciliador, lançando a hashtag #soqueroserfeliz parafraseando frase célebre do poeta Ferreira Gular, Eu não quero ter razão, eu só quero ser feliz.  “Tenho grande admiração e respeito pelos que optaram por sair, não menor do que pelos que ficam. As críticas sobre a gestão nacional da ciência vindas dessa galera que partiu são muito pertinentes e merecem reflexão mas suas decisões de vida são individuais e não decretam o fim da ciência brasileira. Pelo contrário, só confirmam que a ciência é internacional e o cientista um cidadão do mundo! Temos muito a fazer pelo Brasil, tanto aqui quanto no exterior”, escreveu em sua página do Facebook, antes de começar a compartilhar casos de cientistas que ficaram no Brasil apesar das adversidades, ou que retornaram ao país depois de um período no exterior. Rehen costuma dizer que aposta na “internacionalização da ciência brasileira”, trazendo gente de fora ou formada no exterior para fazer ciência aqui no país e não o contrário.

O caso é emblemático. Uma só decisão pessoal abriu espaço para debater a crise da ciência brasileira, a precarização da universidade, a burocracia das agências de fomento, financiamento de pesquisa, interface público e privado e até temas mais subjetivos, como a carreira profissional e uma visão nacionalista sobre ciência e suas fronteiras.  Não tenho opinião formada sobre os posicionamentos de cada um. No final, me compadeço com a situação de todos. Mas o futuro a Deus pertence, literalmente. Quem sabe no próximo governo todos os problemas não se resolvem com uma prece?  (sarcarsmo alert).

*O post é apenas uma compilação das repercussões da notícia, sem juízos atrelados.

Ciência no cinema

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Entre os dias 21 de abril e 8 de maio, acontece no Rio de Janeiro a mostra Cinema e ciência, um ciclo de filmes e debates dedicados às ciências promovido pelo Instituto Moreira Salles em parceria com a  Academia Brasileira de Ciências (ABC) em razão do centenário dessa sociedade científica.

Serão exibidos documentários e ficções que abordam os mais diferentes aspectos das ciências exatas e biológicas, passando pela biologia marinha e a física nuclear. Na programação estão filmes que abordam a ciência do ponto de vista de ficção, como Ex_machina: instinto artificial, vencedor do Oscar 2016 de efeitos visuais que discute a robótica, e também obras documentais, como A Vida Secreta das Plantas, do biólogo e apresentador da BBC David Attenborough.

O evento traz ainda filmes raros, como os curta-metragens em 35 mm do cineasta e biólogo francês Jean Painlevé (1902-1989), um dos precursores do cinema sobre ciência. Com mais de 200 documentários sobre ciência produzidos ao longo da vida, Painlevé inaugurou na década de 1920 o que chamava de cinema poético-científico, retratando principalmente a vida animal e submarina. Foi um dos primeiros a filmar debaixo d’água e revelar ao público o comportamento de estranhos seres aquáticos, como o polvo, o caranguejo, o cavalo-marinho e as anêmonas.

Algumas das sessões de cinema serão seguidas de conversas com importantes cientistas brasileiros, como a geneticista Zatz, coordenadora do Centro de Pesquisas sobre o Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL),  o matemático Artur Avila, vencedor da Medalha Fields em 2014, e Étienne Ghys, professor da École Normale Supérieure de Lyon e pesquisador do Centre Nationale de la Recherche Scientifique, na França.

Os ingressos custam 8 reais (inteira) e 4 reais (meia-entrada) e podem ser adquiridos na recepção do IMS ou pelo site www.ingresso.com.

Local:

Confira a programação completa: 

Quinta-feira | 21 de abril:

16h – A febre da partícula, de Mark Levinson (EUA, 2013, 99’)

19h – Uma breve história do tempo, de Errol Morris (EUA, 1991. 84’)

*Debate com George Matsas, professor titular do Instituto de Física Teórica da Unesp


Sexta-feira | 22 de abril:

16h – A vida privada das plantas, de David Attenborough (Reino Unido, 1995. 100 min)

19h – Ex_machina: instinto artificial, de Alex Garland (Reino Unido, 2015. 108’, 14 anos)

*Debate com André Ponce de Leon F. de Carvalho, professor titular do Departamento de Ciência da Computação da USP


Sábado | 23 de abril:

16h – Para todo sempre, de Michael Madsen (Dinamarca, Finlândia, Suécia, Itália, 2010. 75 min)

18h – Interestelar, de Christopher Nolan (EUA, Reino Unido, 2014. 169’, 10 anos)

 

Domingo | 24 de abril:

16h – Microcosmos – Fantástica aventura da natureza, de Claude Nuridsany e Marie Pérennou (França, Suíça, Itália, 1996. 80’)

18h – Para todo sempre, de Michael Madsen (Dinamarca, Finlândia, Suécia, Itália, 2010. 75 min)

 

Terça-feira | 26 de abril

16h – A febre da partícula, de Mark Levinson (EUA, 2013, 99’)

19h – Uma breve história do tempo, de Errol Morris (EUA, 1991. 84’)

 

Quarta-feira | 27 de abril:

16h – Copenhagen, de Howard Davies (Reino Unido, 2002. 90’)

19h – Projeto Nim, de James Marsh (Reino Unido, EUA, 2011. 93 min)

 

Quinta-feira | 28 de abril:

16h – A vida privada das plantas, de David Attenborough (Reino Unido, 1995. 100 min)

19h – Microcosmos – Fantástica aventura da natureza, de Claude Nuridsany e Marie Pérennou (França, Suíça, Itália, 1996. 80’)

*Debate com Ricardo Monteiro, professor associado da UFRJ

 

Sexta-feira | 29 de abril:

16h – Projeto Nim, de James Marsh (Reino Unido, EUA, 2011. 93 min)

19h – Curtas – Filmes de Jean Painlevé, Geneviève Hamon e J.C. Mol

Do reino dos cristais (Holanda, 1927. 14’)

O polvo (França, 1927. 13’)

O cavalo-marinho (França, 1933. 14’)

Ouriços-do-mar (França, 1954. 11’)

Histórias de camarões (França, 1964. 10’)

A vida amorosa do polvo (França, 1967. 14’)

Ácera, ou o baile das bruxas (França, 1972. 13’)

Cristais líquidos, de Jean Painlevé (França, 1978. 6’)

*Debate com o biólogo marinho Marcelo Szpilman, diretor-presidente do Aquário Marinho do Rio (AquaRio) e Belita Koiller,doutora em Física pela Universidade da Califórnia em Berkeley e professora titular da UFRJ

 

Sábado | 30 de abril

16h- Out of the Present, de Andrei Ujica (Alemanha, 1999. 96’)

18h – Interestelar, de Christopher Nolan (EUA, Reino Unido, 2014. 169’, 10 anos)

*Debate com Martin Makler, doutor em Física pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF)

 

Domingo | 1 de maio

16h – Curtas – Filmes de Jean Painlevé e J.C. Mol

Do reino dos cristais (Holanda, 1927. 14’)

O polvo (França, 1927. 13’)

O cavalo-marinho (França, 1933. 14’)

Ouriços-do-mar (França, 1954. 11’)

Histórias de camarões (França, 1964. 10’)

A vida amorosa do polvo (França, 1967. 14’)

Ácera, ou o baile das bruxas (França, 1972. 13’)

Cristais líquidos, de Jean Painlevé  (França, 1978. 6’)

19h- Out of the Present, de Andrei Ujica (Alemanha, 1999. 96’)

*Debate com José Monserrat Filho, com extensa experiência na área de direito espacial, tendo acompanhado desde o início o projeto espacial brasileiro

 

Sábado | 7 de maio

14h – GattacaExperiência genética, de Andrew Niccol (EUA, 1997. 106’, 12 anos)

*Debate com Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Pesquisas sobre o Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL)

18h45 – Gênio indomável, de Gus Van Sant (EUA, 1997. 126’)

*Debate com Étienne Ghys, matemático, diretor de pesquisas no Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, e Artur Avila, o primeiro brasileiro a receber a Medalha Fields, considerada o prêmio Nobel da matemática. A mediação será de João Moreira Salles.