Testes com mini cérebros podem apontar medicamento eficaz contra a zika em dois meses

Minicérebros cultivados em laboratório. Estruturas estão ajudando a compreender os efeitos da infecção por zika.
Minicérebros cultivados em laboratório. Estruturas estão ajudando a compreender os efeitos da infecção por zika.

No domingo, noticiei aqui a pesquisa totalmente nacional do grupo dos pesquisadores Stevens Rehen e Patrícia Garcez, que usaram mini cérebros e neuroesferas para simular o cérebro em desenvolvimento de fetos e observar como o zika vírus age sobre essas células. Os resultados revelaram que o vírus de fato mata as células cerebrais em formação e provoca redução de 40% no crescimento das células neurais em minicérebros com complexidade equivalente à do córtex um bebê de 2 meses. A associação já era esperada. Mas, para além da constatação, o modelo dos mini cérebros in vitro possibilita a testagem de diferentes medicamentos, o que pode culminar com a resposta prática que a sociedade tanto espera: um tratamento para evitar a microcefalia e demais alterações neurológicas já observadas nos fetos.

No Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), uma das instituições envolvidas na pesquisa, o grupo dispõe de um robô capaz de aplicar simultaneamente diferentes drogas em milhares de mini cérebros infectados. Assim é possível identificar que substâncias têm poder proteger as células cerebrais contra o vírus ou inibir a sua ação.

Ao mesmo tempo em que a equipe fazia os experimentos publicados na Science (realizados no tempo recorde de 25 dias, graças a muitas noites viradas no laboratório), já começava a testar com esse equipamento medicamentos existentes e liberados para uso.”Nosso objetivo é buscar estratégias que possam reduzir as consequências da infecção para as mães grávidas”, explica o neurocientista Stevens Rehen.

Rehen conta que sua equipe já testou cerca de 10 medicamentos ou combinações de medicamentos até o momento e que pelo menos um deles tem se mostrado promissor. Se continuarem nesse ritmo e esforço de pesquisa, acreditam que terão uma resposta em dois meses.

“É através da ciência que conseguimos respostas robustas para crises”, afirma o cientista. “A ciência tem que ter essa sensibilidade de que quando é para ter uma resposta rápida, conseguimos.”

União de esforços e novos caminhos

Desde que o surto de zika e microcefalia surgiu no país, pesquisadores dos quatro cantos se uniram em uma rede de pesquisa voltada para o assunto coordenada pelo professor Paolo Zanotto, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e financiada pela Pafesp e Faperj. O grupo conta com mais de 40 laboratórios  de instituições de pesquisa brasileiras e também colaborações de integrantes internacionais, como o Instituto Pasteur de Dakar, no Senegal.

A urgência contribuiu inclusive para a quebra de velhos paradigmas da ciência, como o tradicional sistema de publicação por pares. A maioria dos artigos científicos  ainda segue a lógica dos periódicos científicos em que um artigo só é levado a público depois de aceito para publicação e revisado por avaliadores. Embora em áreas como a física o processo já seja diferente, sendo comum o compartilhamento de dados antes de qualquer publicação no repositório Arxiv, nas ciências biológicas ainda reina o velho esquema.

No caso desse estudo com mini cérebros, o grupo — que trabalhava há meses no desenvolvimento de organoides sem ter ainda publicado um artigo sobre a técnica — optou por deixar seus dados abertos e divulgar os resultado primeiramente na forma pre-print na plataforma Peerj. “Tivemos um retorno incrível, mais de 10 mil pessoas leram nosso trabalho antes da publicação na Science e muitas delas deram contribuições importantes”, conta Rehen. “Pode tomar um tempo, mas acredito que essa prática vai ser incorporada pela comunidade de biomédicas e de saúde.”

Zica, cérebros, fetos e adultos

Pesquisa brasileira com minicérebros publicada na Science comprova relação entre o vírus e a morte de células neurais em estágio embrionário, enquanto dados epidemiológicos apontam para danos também em adultos

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Os cientistas infectaram neuroesferas (marrom) com zika vírus (laranja) para observar o efeito do patógeno sobre as células neurais. (foto: Rodrigo Madeiro)

Dois estudos brasileiros divulgados neste final de semana confirmam desconfianças da ciência e ajudam a compreender melhor as diversas facetas dos impactos do zika vírus sobre o cérebro de fetos e adultos.

Um deles, publicado na Science por um grupo de pesquisadores da UFRJ, do IDOR e da Unicamp, comprova pela primeira vez com experimentos in vitro a capacidade do vírus de matar células neurais em desenvolvimento, o que pode explicar o recente surto de microcefalia em bebês que tem assolado o país.

A pesquisa, que utilizou mini cérebros criados em laboratório, já havia sido abordada em detalhes aqui no blog quando ainda era uma ideia no papel, em janeiro. O estudo foi colocado em prática rapidamente graças à cooperação entre as instituições usando verbas não específicas do BNDES, Capes, CNPq, Finep e Faperj e publicada online como pre-print sem revisão por pares em março, antes do aceite da Science.

Os mini-cérebros ou organoides cerebrais são um modelo preciso do cérebro humano em estado embrionário obtido a partir de células-tronco humanas, que têm a capacidade de se transformarem em qualquer tecido. As estruturas possuem apenas milímetros e mal podem ser vistas a olho nu, mas se comportam como o cérebro de um feto em desenvolvimento.

Em todo o mundo poucas equipes de pesquisa dominam a técnica para criar essas estruturas, que curiosamente estrearam na literatura acadêmica justamente em um estudo sobre microcefalia, não relacionado à zika, publicado pela jovem Madeline Lancaster na Nature em 2013.

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No estudo brasileiro, mini cérebros e também neuroesferas (estruturas semelhantes, mas menos refinadas, formadas por células tronco neurais ainda não transformadas em neurônios) foram infectados com o vírus da zika. Os pesquisadores observaram que o vírus penetrou nas mitocôndrias e nas vesículas das células das neuroesferas provocando a sua morte por apoptose, uma espécie de autodestruição comum nas infecções por vírus. Já os mini cérebros, após 11 dias de infecção, tiveram seu crescimento reduzido em 40% em comparação com as estruturas não infectadas.

Os mini cérebros infectados tinham a estrutura semelhante a de um cérebro de um feto de dois meses. Além de mostrar os efeitos do vírus sobre um cérebro dessa idade, o estudo pode ajudar no desenvolvimento e testagem de drogas contra a doença.

“Os mini cérebros são um modelo também para testar possibilidades de tratamento”, afirmou o neurocientista Stevens Rehen, da UFRJ e IDOR, que assina o estudo ao lado de Patricia Garcez e mais quatro brasileiros.

zika-mini-cerebrosOs pesquisadores também repetiram os testes usando vírus da dengue, mas este não demonstrou a mesma capacidade de matar as células cerebrais, o que reforça a ideia de que as malformações cerebrais observadas recentemente nos bebês são realmente obra única do vírus da zika.

Mais estudos ainda são necessários, porém, para caracterizar as consequências da infecção por zika vírus nos diferentes estágios do desenvolvimento fetal e compreender os mecanismos que levam ao surgimento da microcefalia nos bebês.

Adultos também

O segundo estudo publicado nesse final de semana é da médica Maria Lúcia Brito Ferreira, chefe do Serviço de Neurologia do Hospital da Restauração (HR), em Recife (PE). Ferreira reforça a ligação entre o zika vírus e uma complicação neurológica em adultos, similar à esclerose múltipla, que ataca a mielina do cérebro — estrutura lipoproteica que envolve os axônios e protege o circuito neural.

A possibilidade tem por base o acompanhamento de pacientes que procuraram o hospital recifense com sintomas de zika, dengue e chicungunha entre dezembro de 2014 e junho de 2015.

No período, seis pessoas tiveram a infecção por zika confirmada com exames laboratoriais, das quais duas desenvolveram encefalomielite aguda disseminada – uma doença inflamatória do sistema nervoso central que pode ocorrer após um quadro de infecção. Em ambos os casos, exames de imagem mostraram sinais de danos à substância branca e à medula espinhal chegando à mielina. Já as outras quatro pessoas infectadas tiveram a síndrome de Guillan Barret, anteriormente associada à zica.

Os pacientes ainda hoje apresentam problemas motores, de memória e raciocínio.

“Embora nosso estudo seja pequeno, ele provê evidências de que o vírus tem capacidade de produzir outros tipos de danos cerebrais”, diz Ferreira, que vai apresentar seus dados na 68ª Reunião Anual da Acadmeia Americana de Neurobiologia em Vancouver, Canadá, no dia 15 de abril. “Vamos precisar de mais estudos para poder afirmar que existe um vínculo causal entre o zika e esses problemas, e esses dados são importantes nesse cenário.”

Pesquisadores infectam minicébros para entender relação entre zika e microcefalia

Em laboratório, cientistas vão observar de perto como o vírus pode estar afetando o desenvolvimento cerebral dos fetos.

minicérebroO Brasil registra hoje quase 3 mil casos suspeitos de bebês nascidos com microcefalia, possivelmente relacionados à infecção por zika vírus pelas gestantes. Uma epidemia que tem deixado a população e a comunidade cientifica confusas. Em busca de respostas para o fenômeno, pesquisadores da UFRJ, Fiocruz e Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) vão se valer de uma estratégia inédita e bem interessante: infectar com o zika vírus minicérebros criados em laboratório.

Os mini-cérebros ou organoides cerebrais são o modelo mais preciso do cérebro humano que se pode criar hoje em laboratório. Obtidos a partir de células-tronco humanas, eles têm apenas milímetros e mal podem ser vistos a olho nu, mas se comportam como o cérebro de um feto em desenvolvimento. Em todo o mundo poucas equipes de pesquisa dominam a técnica para criar essas estruturas. No IDOR, a equipe do neurocientista Steven Rehen cria esses minicérebros para estudar doenças neuropsiquiátricas. Agora, eles serão colocados a serviço da pesquisa sobre o zika vírus.

Os pesquisadores das três instituições pretendem infectar os mini-cérebros com o zika vírus usando o soro de pacientes que tiveram a doença. “Os mini-cérebros são um modelo muito bom porque são células humanas e refletem exatamente o desenvolvimento cerebral dos fetos”, diz a biomédica especialista em microcefalia Patrícia Garcez, que representa a UFRJ e o IDOR no estudo. “Não conseguiríamos ter a mesma qualidade de observação usando camundongos, pois a camada cerebral afetada pela microcefalia se forma de maneira diferente nos roedores.”

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Apesar de não estar claro ainda para os cientistas como o zika vírus pode provocar a microcefalia, eles sabem que a má-formação ocorre por alterações na formação dos neurônios, etapa que ocorre nos primeiros 4 meses da gestação. Os cientistas vão realizar os testes com mini-cérebros dessa mesma idade e olhar especialmente para o primeiro mês de vida dos organoides, quando os neurônios começam a surgir.

Até hoje a microcefalia era considerada um doença rara de origem genética, ocasionada por alterações nos genes associados às funções do centrossoma — organela importante para a correta estruturação das células. Com o recente surto, os pesquisadores precisam entender por que a doença está surgindo em pessoas que não possuem mutações genéticas

Sabe-se que na microcefalia de origem genética as alterações nos centrossomas acarretam em atraso no ciclo celular, gerando redução na quantidade de neurônios e a consequente diminuição no tamanho do cérebro. Os pesquisadores acreditam que o zika vírus pode estar provocando o mesmo efeito nos bebês das gestantes infectadas.

“Ainda não sabemos o que vamos encontrar, mas temos algumas hipóteses”, conta Garcez. A pesquisadora explica que há duas possibilidades: ou o zika vírus causa diretamente as alterações que levam à microcefalia ou ele produz substâncias que afetam o desenvolvimento neural. Saber como o vírus atua pode abrir caminho para futuros tratamentos e estratégias de prevenção.

Zika e Dengue

Os cientistas também irão infectar os mini-cérebros com o soro de pacientes que  tiveram dengue, além do zika. O experimento se baseia na hipótese de que o vírus da dengue seja o responsável pela passagem do zika vírus para a placenta. É a primeira vez que se observa um vírus transmitido por mosquito com a capacidade de ultrapassar a barreira que existe entre a corrente sanguínea da mãe e a placenta, que nutre o bebê.

“Talvez o vírus da dengue, com quem já convivemos há mais tempo, tenha provocado uma ativação do nosso sistema imune gerando anticorpos que facilitam a entrada do zika na placenta”, comenta Patricia Sequeira, pesquisadora da Fiocruz que vai infectar os mini-cérebros. Segundo essa hipótese, os anticorpos produzidos pelo corpo para combater a dengue estariam funcionando como um cavalo de Tróia, levando o zika vírus para a placenta do bebê.

A hipótese faz sentido quando olhamos para os dados mais recentes sobre ambas as doenças no Brasil. O surto de microcefalia apareceu no ano em que o país registrou a maior quantidade casos de dengue da história. Em 2015, foram  1.649.008 casos prováveis de dengue no país segundo relatório epidemiológico do Ministério da Saúde. A maior incidência desde que os dados começaram a ser coletados, em 1990.

Os minicérebros já estão prontos e devem ser infectados agora no início do ano. As primeiras observações devem ser feitas pela equipe de pesquisa em março se o cronograma for seguido.

A pesquisa tem orçamento estimado de R$ 600 mil, que os pesquisadores esperam conseguir com um edital da Faperj e apoio do Ministério da Saúde. O jeito é torcer para que a crise não atrapalhe.

Repressão na academia

Passados 30 anos do fim do Regime Militar no Brasil, o tema ainda permeia conversas e produções culturais. Não faltam livros, filmes e documentários para lembrar a época e as tensões e violações de direitos humanos que a acompanharam. Dramas que permearam todas as esferas, públicas e privadas, e inclusive a academia. Um portal criado por pesquisadores brasileiros aborda justamente a história de cientistas e professores universitários que tiveram suas carreiras e vidas afetadas pela ditadura que vigorou no Brasil entre 1964 e 1985.

O “Ciência na Ditadura” funciona como uma espécie de enciclopédia sobre o tema. Nomes de quase 500 cientistas brasileiros afetados pelo regime estão listados em ordem alfabética acompanhados de verbetes informativos sobre sua história. São pesquisadores que foram presos, torturados, assassinados, exilados, demitidos, aposentados, submetidos a inquéritos militares, que tiveram suas publicações proibidas ou tiveram que se demitir ou fugir do país por perseguição política.

O coordenador do projeto, o físico Alfredo Tomasquim, pesquisador do Museu de Astronomia (MAST) e responsável pelo Observatório do Amanhã do Museu do Amanhã, conta que a ideia da iniciativa surgiu no ano passado, em razão dos 50 anos do golpe. “Nos demos conta de que, apesar dos inúmeros trabalhos de qualidade sobre a atuação da ditadura nas universidades e nos institutos de pesquisa, inexistia um levantamento consolidado que nos permitisse saber quantos cientistas foram de fato afetados pelos expurgos e perseguições e quais os caminhos que cada um tomou a partir de então”, pontua.

O objetivo de Tomasquim e dos outros pesquisadores envolvidos no portal é apresentar a real dimensão e o impacto da repressão política sobre a atividade acadêmica no Brasil. 

Dentre os dos cientistas listados no site está o professor José Leite Lopes, físico do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e professor da então Universidade do Brasil que é considerado um marco na consolidação da física moderna no país. Lopes foi acusado de ligação com o comunismo e exilado continuou suas pesquisas na Universidade Louis Pasteur, na França.

“Ele que foi alertado pela embaixada americana que havia planos para raptá-lo, matá-lo e lançar o corpo no mar”, conta Tomasquim. “Estive com um de seus orientandos na época, o também físico João dos Anjos, que comentou que havia marcado uma reunião com ele para discutir a tese e encontrou-o arrumando os papéis. Ele então o orientou de fato: ‘meu filho, estou indo embora e sugiro que você faça o mesmo!’.”

Outras histórias tiveram um final mais radical. Como o caso da professora do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), Ana Rosa Kucinski Silva e seu marido Wilson Silva. Os dois integravam a Ação Libertadora Nacional (ALN) e foram dados como desaparecidos em abril de 1974. A USP chegou a afirmar que houve abandono de emprego. Recentemente, com os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, ficou comprovado que ambos foram mortos por agentes da repressão.

Além de disponibilizar essas histórias para o público, o projeto visa congregar dados para fazer uma cartografia dos atingidos pela repressão, revelando, por exemplo,  faixa etária mais afetada, área do conhecimento, proporção entre homens e mulheres, entre outros aspectos.

O projeto está aberto à colaboração do público que pode contribuir com novas informações ou correções pelo e-mail ciencianaditadura@mast.br.

Conheça alguns pesquisadores e professores perseguidos durante a ditadura:

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Camundongos, iPads e milk shake contra o Alzheimer

 

Antes que o leitor se confunda: tomar milk shake ou passar horas no iPad não curam Alzheimer. Muito menos camundongos. A ligação entre esses elementos aparentemente estranhos entre si é uma pesquisa que vem sendo conduzida por cientistas brasileiros no Robarts Institute, da Universidade de Western Ontario, no Canadá.

Marcos Prado e sua esposa Vânia Prado vem usando iPads em experimentos com camundongos para entender o desenvolvimento do Alzheimer e seus sintomas. Diferentes drogas são aplicadas nos animais na tentativa de encontrar um tratamento para a doença e os ipads ajudam a avaliar a eficiência desses medicamentos.

No laboratório, os pesquisadores treinaram camundongos na tarefa de jogar uma espécie de jogo da memória em iPads. Os tablets colocados nas gaiolas dos animais exibem três figuras lado a lado: uma flor, uma aranha e um avião. Em seguida as imagens se apagam e aparece na tela uma das figuras. A tarefa do camundongo é tocar na área da tela onde esta imagem apareceu anteriormente ao lado das demais. Se ele errar, uma luz de acende e ele não ganha nada. Se acertar, a recompensa é um pouco de milk shake de morango!

“É incrível a inteligência dos camundongos, muita gente não acredita que não-primatas poderiam fazer esse tipo de tarefa, mas podemos treiná-los para fazer muita coisa!”, diz Marcos Prato, que já estuda o Alzheimer há mais de sete anos e apresentou suas pesquisas durante o Congresso Mundial do Cérebro (IBRO 2015), realizado pela primeira vez na América Latina, no Rio de Janeiro nesta semana.

O “jogo” vem sendo aplicado a grupos de animais saudáveis e modelados para exibir as características do Alzheimer. Isso permite aos pesquisadores identificar as diferenças no desempenho de ambos os grupos e comparar a performance antes e depois da aplicação de certas drogas candidatas para o tratamento da doença.

Sem a intervenção com medicamentos, os animais saudáveis acertam entre 90% e 100% das jogadas, enquanto os animais doentes não passam de 60% de acertos. Os pesquisadores trabalham com 48 gaiolas com tablets no momento. Os testes com cada animal levam uma hora. Com o método, em somente 2 horas de trabalho, eles conseguem testar os efeitos cognitivos de até cinco medicamentos em 300 camundongos por dia. “A gente quer testar tipos de tratamento diferentes e com essa proposta conseguimos fazer isso muito bem”, comenta Marco Prado.

Para além do fascínio pela tecnologia, o uso dos tablets tem uma razão. O pesquisador explica que é muito mais fácil processar os dados do estudo dessa forma. Com os iPads, o score dos camundongos é registrado em tempo real e já vai para uma base de dados. Assim é possível analisar um grande volume de dados de uma vez. Todo o processo é automatizado, afinal não temos tempo a perder. Conforme a população envelhece, os casos de Alzheimer se tornam cada vez mais comuns. Previsões do IBGE apontam que, em 2025, 32 milhões de pessoas terão a doença no Brasil, o equivalente a 15% da população do país.

“Parece que há muitas pesquisas em Alzheimer, mas não há”, pontua Prado. “Investe-se muito mais em outras doenças como o câncer, mas a realidade é que com o aumento da expectativa de vida é inevitável que as pessoas passem a ter mais Alzheimer.”

Estatal chinesa ligada a contratos militares e escândalos de segurança da informação vai construir base científica brasileira na Antártica

For now, Brazilian researches are staying in temporary modules.

Depois de ter sua primeira abertura de licitação fechada por falta de proponentes interessados em fevereiro do ano passado, a Marinha anunciou o resultado do último certame para a construção da nova estação científica Comandante Ferraz, na Antártica. A empresa escolhida foi a estatal chinesa China National Electronics Import & Export Corp (CEIEC), que no passado esteve envolvida em vazamentos de informação na internet e já foi punida pelos EUA por vender material bélico para o Irã.

A companhia chinesa foi a que ofereceu o menor preço para reerguer a base brasileira, destruída por um incêndio em 2012: 99,6 milhões de dólares (cerca de R$ 300 milhões), bem acima do último valor de R$ 145,6 milhões orçado pela Marinha no ano passado.

A escolha da empresa vem depois de disputas judiciais entre outras duas concorrentes. Em janeiro deste ano, a Marinha já havia anunciado a CEIEC como vencedora da segunda licitação aberta. Mas a finlandesa OY FCR Finland e o consórcio brasileiro-chileno Ferreira Guedes/Tecnofast apresentaram recursos judiciais contra a decisão. Ambos os recursos foram interpostos em outubro de 2014.

A chinesa CEIEC já conta com outros projetos com países latinos. No Equador, a  estatal é responsável pela instalação de um sistema de segurança conhecido como ECU-911, que inclui dois centros de vigilância nacionais e cinco regionais. A empresa também assinou contratos com a Venezuela e a Bolívia em 2013 para construir prédios públicos e redes de segurança da informação.

Apesar de anunciar sistemas eletrônicos de defesa como um dos seus fortes, a companhia chinesa é a mesma que em 2012 supostamente foi hackeada por um dos integrantes do grupo Anonymous.

Na ocasião, um hacker conhecido como “Hardcore Charlie” anunciou que havia invadido os arquivos da CEIEC, que possui também contratos militares. Segundo ele, os documentos da empresa revelavam informações relacionadas à guerra dos Estados Unidos no Afeganistão. No mesmo ataque, que resultou no roubo de mais de 1 terabyte de informações da CEIEC, o hacker também obteve o código-fonte do antivírus VMalware e o divulgou na internet.

Embora a VMalware tenha confirmado a autenticidade do código-fonte roubado, a CEIEC negou o ataque e o assunto não foi para frente. Esperemos que o mesmo não aconteça com a construção da base brasileira. Vale citar ainda que em 2007 e em 2009 a CEIEC e a sua subsidiária CIES foram punidas pelo Departamento de Estado nos EUA por vendas ilícitas de armamentos para o Irã e a Síria.

Atualização:

A CEIEC já havia feito outros negócios com o Brasil antes. Em julho de 2014, durante uma visita do presidente chinês Xi Jinping, representantes da empresa firmaram um acordo-quadro de cooperação tripartite com o Industrial and Commercial Bank of China e a Engevix Sistemas de Defesa Ltda — empresa do Grupo Engevix, atualmente em investigação pela operação Lava Jato da Polícia Federal, que investiga esquemas de corrupção entre a Petrobras, grandes empreiteiras e políticos.

Nesta semana, a empresa chinesa fechou ainda outro acordo de grande porte, desta vez com o governo Amazonas, em que comprometeu a aplicar investimentos da ordem de US$ 1 bilhão no estado para fomentar parcerias em áreas como ciência e tecnologia e obras de infraestrutura.

As aventuras médicas de Tintim

É de se imaginar que um viajante assíduo com mais de 23 países no passaporte e até uma passagem pela Lua tenha experimentado alguns acidentes e momentos de doenças. Mas o que dizer de um histórico médico com mais de 200 problemas de saúde? Parece coisa de ficção! E é. O viajante em questão é o jornalista belga Tintim, personagem do cartunista Hergé. E a contagem, acredite, é fruto de uma pesquisa científica, publicada no periódico médico francês La Presse Médicale.

O artigo, assinado por cinco autores dos EUA, França e Reino Unido, contabilizou e analisou todos os problemas de saúde que o personagem sofreu em suas 23 aventuras, publicadas entre 1930 e 1970. Os pesquisadores classificaram ainda os episódios entre traumáticos e não traumáticos e distinguiram os intencionais (cometidos por outros) dos não intencionais.

Eles identificaram 236 eventos que causaram 244 problemas de saúde. Uma média de 8 complicações médicas por aventura! Destes, 191 foram acidentes traumáticos, dos quais 62% lesões na cabeça.

Outros percalços comuns foram os problemas para dormir, a depressão, ansiedade e o envenenamento por gás e clorofórmio. No total, Tintim perdeu a consciência 46 vezes, 29 vezes em decorrência de traumas e 17 por outros motivos.

Um terço dos eventos que levaram a um problema de saúde foram intencionais. Só tentativas de assassinato ao jovem repórter foram 55!

Apesar de tantas moléstias, o jornalista só sofreu 6 internações e 2 cirurgias. Ah, e 13 sequestros.

Os autores também perceberam que o número de problemas de saúde e de sequestros era muito maior antes de 1945, quase o dobro do período posterior. Teria alguma relação com o fim da guerra?

Além disso, os pesquisadores notaram que o personagem nunca não experimentou doenças comuns aos viajantes, como diarreia, queimaduras de sol, enjoo ou mal da altitude (e olha que ele escalou o Himalaia!)

Mas o melhor e mais inacreditável do trabalho é mesmo a conclusão: “As habilidades quase super-humanas de Tintim, um luxo lhe concedido pelo seu status ficcional, fazem dele altamente resistente ao trauma. Ele não é suscetível às doenças comumente relacionadas à viagens, mas é facilmente influenciado por seu amigo Milu, seu cão fiel.”

Não acreditou? Confira aqui o artigo original.

Ps: Não é a primeira vez que a saúde de Tintim é investigada em uma pesquisa científica. Em 2004, foi publicado um artigo sugerindo que o personagem teria deficiência hormonal provocada por inúmeros golpes na cabeça, o que explicaria a sua baixa estatura, o seu não envelhecimento e a sua falta de libido.